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A contribuição dos gays, lésbicas e travestis para o mundo

 

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Escrito por Vitor Angelo às 23h47

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Um banheiro para Laerte/Sonia

Banheiro em casa é para todos. Vai a amiga, vai o primo, vai o cara que tá consertando a pia e ficou apertado. Enfim, no banheiro de nossas casas ambos os sexos o frequentam e porque existe algo chamado civilidade, em geral, o banheiro continua intacto.

Mas o assunto é o banheiro público e a divisão binária que hoje temos entre homem e mulher. Mais ainda, a questão é o projeto de lei do vereador da cidade de São Paulo Carlos Apolinário (DEM): criar um terceiro banheiro público unissex destinado a gays, lésbicas, bissexuais, transexuais, travestis e até heterossexuais.

A ideia surgiu depois que o vereador, autor também do controverso projeto – vetado – do Dia do Orgulho Hétero, soube que o/a cartunista Laerte Coutinho/Sonia Cateruni foi advertido pelo gerente de um restaurante por ter usado o banheiro feminino. Há dois anos, Laerte/Sônia vive com trajes de mulher e, mais do que isso, assumiu através das roupas a alma considerada e construída como feminina.

Um dos grandes sustos e abusos do/a cartunista é que seu simples existir mostra com evidência como masculino e feminino não passam de meras construções.

Laerte/Sônia não gostou nada da lei: “Carlos Apolinário propõe banheiro “unisex” - na verdade, um terceiro banheiro, para banir os diferentes (dele) das vistas dos homofóbicos. É a institucionalização do gueto. Não surpreende, vindo do sujeito que quis criar o Dia do Orgulho Hetero…”, escreveu em seu Facebook.

Na Folha, ele/ela foi mais enfático e chamou o projeto de “consagração do gueto”. "É uma solução que não é uma solução, porque discrimina de uma vez por todas. Como se os outros fossem normais e uma outra parte não".

Para esconder debaixo de todos os vestidos a verdade da feminilidade como construção, começou-se uma série de argumentos rasteiros partindo do próprio vereador. "Se qualquer cidadão do sexo masculino disser que está se sentindo mulher naquele dia, pode entrar no banheiro feminino. Às vezes, pode ser até um cidadão sem vergonha, mau caráter, que nem tem essa opção sexual", disse Apolinário à Folha.

Confunde-se assim sexo biológico (macho/intersexo/fêmea) com a forma que você demonstra seu gênero, a chamada expressão de gênero (masculino/andrógeno/feminino). Além disso, coloca-se no fácil e falso moralismo a questão da perversão, do sujeito que se aproveitará da situação para abuso.

Como expressão de gênero, Laerte/Sônia sentiu que naquele momento ele/ela deveria ir ao banheiro feminino e como tal se comportará como uma pessoa do sexo feminino (tenho certeza que urinará até sentada e com a porta fechada). Igual ao banheiro das nossas casas, é uma questão de civilidade.

                                                                                              Laerte

Escrito por Vitor Angelo às 19h20

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Gays são expulsos de bar e organizam beijaço em SP

Tudo por causa de um beijo. Não foi por batucarem na mesa, por estarem bêbados demais ou vandalizarem o estabelecimento. Foi um beijo, um beijo entre dois homens - esse tabu que insiste em permanecer - que Marcelo Hailer, 29 anos, jornalista e Eros Prado, 19 anos, estudante  foram expulsos de um bar... que estava vazio, no sábado, 28 de janeiro. Como direito de resposta, eles organizam um beijaço na porta do estabelecimento no sábado, 04, às 16h.

Marcelo Hailer conversou com Blogay e contou o que ocorreu: “Nos encontramos no Centro Cultural de São Paulo, a ideia era assistir algum filme, mas o centro estava de férias e sem programação. Então, resolvemos comer alguma coisa. Fomos para a Lanchonete Parada Vergueiro. Compramos um salgado e um refrigerante e nos sentamos. Durante a conversa trocamos alguns abraços e, entre eles, um beijo e foi nesse momento que escutamos uns barulhos de batidas no balcão. Ignoramos, mas em seguida o funcionário, que depois se revelaria como o gerente, disse para nós pararmos pois tal ato não era permitido em sua lanchonete por se tratar de um ambiente familiar. Retrucamos que também temos família, no que ele respondeu saber que tínhamos família, mas que em seu estabelecimento beijo entre dois caras 'não pode'. A todo momento, ele permaneceu com uma faca na mão, objeto que ele usou para bater no balcão. Detalhe: além de nós e do funcionário, não tinha ninguém na lanchonete.”

Para Marcelo foi um choque pois como ele mesmo disse: “Sempre troco beijos e ando de mãos dadas em locais públicos e nunca tinha me ocorrido isso. Não esperava por tal reação, ainda mais por se tratar de uma região classificada como ‘gay friendly’ [sem problemas em relação aos homossexuais]”.

Mas o mais importante: eles não ficaram apenas na indignação e procuraram órgãos legais pra proteger seus direitos.

 “No domingo, 29, fiz um registro online. Depois, o advogado do Centro de Referência em Direitos Humanos de Prevenção e Combate à Homofobia (CCH), Paulo Iotti, ligou pra mim, e nesta quinta-feira, 02, fiz um B.O. formal. Na hora do ocorrido, não acionamos a polícia por não ter testemunha, porém, quando o gerente do local, Francisco, afirmou o fato e novamente disse as mesmas coisas que havia dito para nós à reportagem do site "A Capa", ele 'criou' provas do ocorrido. Sendo assim, vou à Ouvidoria na Secretaria de Justiça fazer uma denuncia com base na lei 10.948 [a lei estadual contra a homofobia] e primeiramente o bar deve ser notificado por intolerância”, explica Marcelo.

Militantes gays então organizam um beijaço na porta na lanchonete que fica na rua Vergueiro, 907, a partir das 16h neste sábado, 04. O principal para Marcelo é conscientizar os gays dos seus direitos. “Acreditamos ser importante não deixar esse caso em branco, pois, como eu já disse, muitos LGBTs freqüentam o CCSP e aqueles bares em volta, e se o cara expulsou a gente, já deve ter feito isso no passado e com certeza pode vir a fazer novamente no futuro”.

Lição de cidadania!

                                                                                                      Marcelo Hailer

Escrito por Vitor Angelo às 16h55

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As Canções

“I Will Survive” assim como “It’s Raining Men” são canções consideradas gays, assim como muitas de Madonna, Britney Spears e Lady Gaga. É interessante olhar para o que tal música traz para ser identificada por certo grupo e em certo tempo como algo que diz respeito a uma época, um ideário.  Mas, o quanto isso diz respeito a todos os gays?

Apesar do sentido ideológico que podem trazer as músicas que são consideradas gays e devem ser no mínimo pensadas como símbolos de orgulho, respeito e principalmente existência de um grupo,  elas trazem também um componente estranho. Para muitos homossexuais, essas canções acima não dizem nada a seu respeito nem os representam. Sentem que existe uma espécie de forçação de barra para que se padronize um gosto, um pensar, um grupo.

Existe um traço poderoso na canção que, no fundo, luta contra esse processo de coletivização. É quando a canção mais do que memória de um grupo, é uma madeleine pessoal, é aquela que traz a lembrança que só pertence ao indivíduo. Ou quando o indivíduo se une a outro (o amigo, o amante) fazendo que a canção seja a ponte de um novo um que surge da fusão temporária dos dois.

Quando escuto “There Is a Light That Never Goes Out”, dos Smiths, o que sinto não tem muito a ver com homossexualidade e sim de forma intensa vem à mente minha amiga Geórgia, recém chegada a São Paulo, com 18 anos, comendo salada russa em um restaurante perto da Paulista, esperando seu pensionato abrir e a gente matando o tempo nas ruas, conversando ou cantando essa música. É tudo tão prosaico, tão pessoal, mas não menos poderoso e importante para minha vida, para minha formação de indivíduo.

É nessa chave que “As Canções”, de Eduardo Coutinho trabalha. Ao entrevistar pessoas e pedir para que cantem músicas que marcaram a vida dos entrevistados de alguma forma, o documentarista não está preocupado com as grandes mudanças históricas de um país ou do mundo e sim com as pequenas transformações sofridas pelos indivíduos e que as canções ajudam a recordar.

Por isso quando me falam que tal música é gay, eu nunca nego, mas ela quase nunca me pertence como indivíduo. No fundo, o que as canções cantam aos nossos ouvidos é que, além de gay ou acima desse detalhe, existe o indivíduo e ele é muito mais difícil de afinar ou desafinar.

Escrito por Vitor Angelo às 19h30

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Realidade x reality

Muito já se condenou a Globo por manipulação, principalmente na época da ditadura militar. Durante as Diretas Já, no começo dos anos 1980, a emissora mostrou as manifestações na Praça da Sé como parte dos festejos dos 430 anos de São Paulo.

Claro que a resposta veio das ruas. Ao finalmente deixar de ignorar as manifestações populares, a emissora resolveu passar ao vivo uma das mobilizações pela democratização do país no Anhangabau e ganhou um uníssono: “O povo não é bobo, fora a Rede Globo”.

Anos depois, muitos condenaram a manipulação da edição do debate dos então candidatos à Presidência Fernando Collor e Luiz Inácio Lula da Silva transmitido pela Rede Globo. O próprio Boni, na época o todo-poderoso da emissora, admitiu que deu uma ajuda na montagem da imagem de um Collor mais popular para esse momento histórico.

A esquerda costuma muito condenar esses atos que chama de manipulação, mas esquerdistas como o documentarista Michael Moore fazem exatamente o mesmo em seus filmes. A questão, na verdade, passa muito menos pela objetividade e sim pela ética.

Explicitar o seu recorte, mostrar como se pensa e qual o ponto de vista sobre tal assunto é muito mais objetivo criticamente do que uma suposta imparcialidade, muitas vezes mais montada e forjada do que uma ficção científica.

Para todos que olhassem com mais atenção os episódios acima, podemos perceber que sim, existe a tal manipulação e/ou recorte, mas também essa vontade de imparcialidade herdada do jornalismo clássico.

Mas isso foi na época que filosofia e técnicas de jornalismo davam suporte para criar imagens da realidade. Agora estamos no tempo do reality, do Big Brother Brasil e, de forma presunçosa, os detentores desse meio parecem ignorar tanto o jornalismo como a filosofia. E de forma autoritária, montam uma realidade muito mais manipuladora que a que tentou esconder as Diretas Já.

Para eles, “Aids é doença de homossexuais”. A fala feita pelo campeão do BBB 10, Marcelo Dourado, não foi questionada em nenhum momento pela equipe, pois o reality também pode ser ficção e, eles, os que editam, simulam, criam provas, sabem muito bem disso. Mas esquecem que assim como a novela, aliás, em um grau acima da novela, o reality é visto pelos telespectadores médios como a mais pura realidade. E nessa realidade criada pelo senhor Boninho, Bial e cia, a Aids realmente é uma praga gay. Poderia até ser, se não matasse milhares de heterossexuais por ano no mundo.

Então, a realidade se coloca e através do Ministério Público, quase no fim daquele programa, passado quase dois meses, Pedro Bial, o porta-voz, teve que se retratar de uma fala tão obscura e irresponsável, porque se entendia - já que estamos no campo misto entre ficção e realidade - que o responsável pela fala não era Dourado e sim o programa.

As redes sociais que, entre outras coisas ruins e boas, têm se mostrado como um dos instrumentos da cidadania não estava tão aparelhada naquela época como está agora. E dessa vez, o resultado foi imediato. Um vídeo que mostrava um dos participantes, Daniel, bolinando uma das mulheres da casa, Monique, que parecia supostamente desmaiada gerou controvérsias. Seria estupro? Foi consentido? Ele passou dos limites? Opiniões divididas e questões levantadas que só o programa poderia responder.

Mas a Globo novamente preferiu o obscurantismo e retirou os vídeos da internet. Esquecendo a ética, declarou que aquilo foi um caso de amor e que as acusações ao participante eram racistas porque ele é negro para depois voltar atrás e o próprio diretor admitir que o brother “passou dos limites”. A emissora tentou ignorar, mas novamente a realidade se impôs e até apareceu a polícia (essa mesmo, que eu já considero a musa do verão 2012 só que ao contrário porque ela está em todas: Usp, Cracolândia e até BBB).

Além da ética, a emissora parece ter esquecido também regras claras de jornalismo. Por que – antes de expulsar Daniel - não ouviu as duas partes envolvidas, apenas uma foi questionada? Por que não fez uma espécie de acareação, já que o possível crime é muito grave, caso tenha ocorrido? Por que por panos quentes e fingir que nada está acontecendo? Por que o medo de encarar a realidade de frente?

Novamente, apesar das polarizações, o grande culpado não é nem Daniel, nem os discursos misóginos contra Monique e sim um programa que, em nome da audiência, prefere construir bodes expiatórios, do que encarar nem que de leve a realidade e a ética.

Se por um lado o Brasil hoje e a realidade do país é mais democrática e fluida, na Globo parece que realmente o reality transformou alguns em verdadeiros "Grande Irmão".

Escrito por Vitor Angelo às 17h22

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Globo x Globo: O beijo gay

Na cena da morte do amante de Crô em "Fina Estampa", desta sexta-feira, 13, era para ter um diálogo irônico.

O mordomo ao ver o amante morto aos seus pés diz: “E agora, ele se foi…  Sem sequer me dar um último beijo!”. E Teresa Cristina sempre irônica e autorreferente tripudiaria: “E nem podia… Beijo gay tá proibido mesmo!”

Essa última frase não foi ao ar para desgosto de Aguinaldo Silva e de todos que tinham conhecimento desse diálogo. O jornalista Maurício Stycer escreveu sobre lembrando que “em 2010, a Rede Globo se manifestou oficialmente sobre o assunto, dizendo que o ‘beijo gay’ não era apropriado para a sua audiência”. Mesmo assim, questionou - já que não teve beijo mesmo - no final de seu artigo: “Por que a fala não foi ao ar?”

O colunista do F5 Ricardo Feltrin disse no começo desse ano que a Globo quer ser uma TV fofa. Fofa, porém sem saber ainda rir de si.

Tanto artistas como boa parte da equipe da Globo tentam de diversas modos burlar essa “ordem” e finalmente quebrar esse tabu do beijo entre homossexuais na televisão brasileira. Já foi gravado diversas cenas em novelas e nada.

Durante a campanha eleitoral de 2010, o Partido do Socialismo e Liberdade (PSOL) se orgulhou de passar um beijo gay durante o horário nobre na telinha e consequentemente na Globo.

Mas ainda era algo feito fora da emissora. Para surpresa de muitos, no dia 27 de dezembro, durante a retrospectiva 2011 feita pelo Vídeo Show, Jô Soares concorda com os ganhadores de melhor beijo de 2011 na telinha, mas faz um adendo que o beijo mais belo para ele era o de Ney Latorraca e Tarcísio Meira, em “O Beijo no Asfalto” (1981), filme de Bruno Barreto baseado em peça de Nelson Rodrigues. Isto é, uma obra de 1960, um clássico.

Aliás, ele não só falou como pediu para que reproduzissem a imagem e assim, de forma fofa e sorrateira, a imagem de um beijo gay provou que não há muito o que temer, só os inseguros tem algo a temer.

Cena de "O Beijo no Asfalto"

Escrito por Vitor Angelo às 23h49

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Palmeirenses reagem contra faixa “A Homofobia Veste Verde”

De repente, como quem não quer nada, a torcida organizada Mancha Verde se posicionou na frente da entrada da Academia de Futebol, na quarta-feira ,04, em São Paulo e ostentou, mesmo que por pouco tempo, a faixa: “A Homofobia Veste Verde”.  A cor é o símbolo do Palmeiras.

Sabe-se do alto grau homofóbico de muitas organizadas, que chegam a proibir o uso de brinco ou cabelo comprido entre seus filiados, como se isso fosse sinal de “viadagem”. Sabe-se também do alto grau de preconceito contra o jogador Richarlyson, considerado homossexual e por isso indigno de jogar em que clube for. A ligação (tosca) é esta: a organizada, apavorada como uma menininha no escuro, quis dar seu recado à diretoria do clube que não queria o craque no time. E para isso, deu um show de intolerância.

Mas a resposta ao ato não tardou a surgir dos próprios palmeirenses. “Será que na origem desse tipo de manifestação homofóbica estão os medos, traumas e frustrações que buscamos evitar quando escolhemos um time e projetamos nele nossa própria imagem? Acho que sim. Mas se isso não nos impede de superar rivalidades regionais e idolatrar argentinos, chilenos, jogadores que até a temporada passada estavam nos times rivais e uma infinidade de outras situações, por que então não é possível aceitar no time um jogador gay bom de bola? Eu sou palmeirense e quero um time que jogue bem e ganhe títulos. Os jogadores podem ser brancos, pretos, gays, japoneses, vesgos ou canhotos. Eu quero é que o cara dentro de campo jogue bem. Se ele ficar com frescura caprichando no nó da chuteira na hora do adversário cobrar falta, isso sim é um problema grave. O que ele faz fora do campo, não é”, escreveu Marcelo Marchesini no blog Vai Parmera, criado pelo palmeirense Luiz Fernando Moncau.

Nesta sexta-feira, 06, no mesmo blog, Rodrigo Savazoni escreveu um texto com o título: “A esperança é verde. Homofobia? É crime!”. Ele coloca: “O que é verde, meus caros, é a esperança. A esperança de vivermos um dia em um país em que os direitos humanos sejam respeitados, em que jogadores raçudos e competentes como Richarlyson não sejam perseguidos por sua orientação sexual (seja ela qual for), em que a democracia se imponha sobre a barbárie. Homofobia deveria ser crime. Não é, porque este é um país com um alto déficit democrático, mas estamos avançando”.

Essas posições que Luiz Fernando Moncau resolveu abrir para rebater a faixa homofóbica mostra que acima do fanatismo de qualquer torcedor, seja de que time for, está o cidadão, seja ele verde, preto e branco, azul, vermelho...

Escrito por Vitor Angelo às 23h20

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2012 começa com gays sendo o estranho fruto

Estranho fruto, era assim que parecia para a escrita do judeu Abel Meeropol (que usou o pseudônimo de Lewis Allan) e para a voz da negra Billie Holiday, os linchamentos de negros no sul dos Estados Unidos na década de 1930. Um fruto de sangue, que arde ao fogo. “Here is a strange and bitter crop” [“Temos aqui uma estranha e amarga colheita”].

A música, um dos maiores sucessos de Lady Day, é uma resposta mais que além à altura contra os racistas e seus atos de violência. Uma nota musical profunda contra o soco no estômago. E eles nunca desistiram. Foi uma longa sinfonia até os negros conseguirem seus direitos civis nos Estados Unidos.

Em 2012, no Brasil, os homossexuais são hoje o estranho fruto. Na virada do ano, um casal de lésbicas sofreram violência física depois que recusaram paquera do agressor. Já no dia 02 de janeiro, um idoso homossexual foi assassinado por jovens depois de relação sexual.

No dia 04, homossexual foi executado em estrada de Alagoas. No mesmo dia, uma torcida organizada exibe com orgulho: “A Homofobia é verde”, em alusão ao time que torcem. Em Tocantins, no dia 06, um professor gay foi morto a facadas.

Diante tanta barbárie só nos primeiros dias desse ano, ainda com sob a decoração natalina, casais gays andam de mão dadas pela Paulista, numa espécie de resistência amorosa contra tanta violência. Assim como os negros, a ideia de resistência é feita de maneira mais natural possível. E a possibilidade de existência e respeito a esse estranho fruto se impõe, se imporá.

Escrito por Vitor Angelo às 23h05

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Entrevista com Augusto Treppi: “o submisso se realiza em sua submissão”

Só se conhece Augusto Treppi virtualmente, apesar da materialidade de seus livros.  Em seu terceiro romance, ele tem conquistado leitores muito mais pela forma que entrelaça sexo e poder do que as pitadas pornográficas de seus livros.

Muitas vezes, a sua leitura pode ser excitante no sentido sexual da palavra, mas muitas vezes pode ser perturbadora como em alguns trechos de “Dominação”. Ele acaba de lançar seu terceiro livro, um e-book chamado Obsessão, e Blogay o entevistou.

 

Blogay - Sobre o que se trata o livro “Obsessão”, seu terceiro livro?

Augusto Treppi - "Obsessão" é meu primeiro livro narrado em primeira pessoa. Nele, o personagem Ramon conta a surpreendente história do seu relacionamento com Denilson, iniciado depois de ter passado um bom período de molho, se recuperando do primeiro casamento (gay) desfeito. Essa nova relação apresenta ao personagem, um cirurgião bem sucedido, um mundo totalmente diferente, pois o novo parceiro é de outra classe social e econômica, além de mais jovem. Os dois ainda são jovens, porém há uma boa margem de diferença, pois, quando o livro começa, Ramon tem 35 anos e Denilson apenas 20. As personalidades também são diversas. Enquanto Ramon é um homem doce, mais frágil, bastante ingênuo e conciliador, Denilson tem autoestima muito elevada, é bem seguro, determinado e até mesmo truculento. Para enfrentar o dia a dia, ambos terão que avaliar seus conceitos, preconceitos e superar muitas barreiras. O desenvolvimento dessa trama traz elementos de suspense, ação, pitadas de romance policial e momentos de humor, devido às atitudes de alguns personagens coadjuvantes. Claro, também não falta o sexo explícito, narrado cinematograficamente, característica do que escrevo. Com Denilson, o cirurgião comportado e convencional conhece possibilidades sexuais que elevam o seu desejo e sensualidade a patamares nunca imaginados.

Quais são suas influências (literárias ou não)?

Acho que sou muito influenciado pelo cinema, de maneira geral. Sempre assisti muitos filmes e tenho gosto bastante eclético. Da mesma forma, sempre li demais, desde criança. Creio que uma influência de família, por ter pais muito ligados à cinema e literatura, embora com pouca escolaridade formal. Atualmente, sinto também que os seriados de TV interferem no meu estilo. Gosto muito, tanto das comédias quanto dos dramas e policiais investigativos. Em alguns momentos, percebo claramente esta influência na minha narrativa. Já na parte erótica, ou pornô, dos meus livros, a maior influência vem da Internet. Sou um ávido consumidor de relatos e vídeos pornôs. Muitas vezes, antes de escrever, passo horas assistindo videozinhos, vendo performances, relatando mentalmente aquilo que estou vendo. Tento, e acho até que consigo, passar para os leitores a visualização total das cenas, usando palavras. Acho que, talvez por isso, este aspecto do meu trabalho seja tão marcante. Além, é claro, por ser algo não muito usual em literatura. Acho que, pelo menos no Brasil, sou precursor no gênero.

Quando resolveu escrever? Porque a temática gay é importante em seus livros para você?

Eu sempre escrevi, desde a infância tenho facilidade e afinidade com a escrita. De certa forma, toda minha vida profissional esteve vinculada à esta atividade. Como Augusto Treppi, a história começou há uns 4 anos, por causa da Internet. Costumo dizer que se a Internet existisse antes, minha vida teria tomado outro rumo e talvez eu tivesse realizado a mais tempo o ideal de ser escritor. Tudo começou como uma brincadeira, em um grupo de contos eróticos que eu participava. Sugeri que alguém escrevesse um conto onde um office boy dominasse o patrão. Como ninguém fez, resolvi eu mesmo levar adiante, e nasceu o “Comido Pelo Office Boy”. Fez bastante sucesso e vi que no final havia deixado um gancho para continuidade. Assim surgiram as sequências, como se fossem episódios. Do grupo, migrei com a história para o Orkut, onde surgiu Augusto Treppi, um perfil fake que passou a assinar este e outros textos. Com o sucesso, os episódios passaram a ser publicados por sites, alguns eu mesmo mandando, outros no esquema “criativo” CtrlC+CtrlV, esquecendo dos créditos ao autor. O número de leitores foi só aumentando e começou a haver uma confusão, porque os episódios seguiam uma ordem lógica (olha aí a influência dos seriados...) e quem estava iniciando ficava meio perdido. Criei então um blog para poder publicar tudo certinho atendendo a dois objetivos: facilitar para os leitores e garantir a autoria. O acesso foi enorme, e esta foi a razão dele virar um livro. Depois dessa decisão, ele foi interrompido na Internet e o blog posteriormente extinto. Por razões editoriais e mercadológicas, o título foi mudado para “Dominação – Sexo e Violência Transformando Uma Vida”. “Virei” então o escritor profissional que hoje sou.
Já a temática gay é importante por dois motivos principais. Um é porque sou gay. Claro que, como escritor, posso escrever sobre qualquer universo, mas essa realidade me atrai mais, além de considerar que contribuo mais falando de um tema que conheço pessoalmente. Outro fator, que considero até mais importante, é que o artista tem voz, e é legal usá-la em prol de causas em que acredita. Meus livros têm muito sexo sim, mas não são somente sexo. Nas entrelinhas, e algumas vezes de forma bem direta mesmo, trato de temas relevantes de combate ao preconceito, à homofobia, abordo questões sociais e exerço minha militância. Através da literatura é possível conscientizar sem ser didático, o que acaba sendo bem eficaz.

A temática gay é presente nos seus três livros, mas a pornografia é o que os une. Qual o limite entre literatura e pornografia? Quando a pornografia pode ser literária e quando não?

Acho que a pornografia é literária quando ela é bem escrita. Este é um ponto positivo. O outro, contrário, é que creio ser bem difícil fazer literatura somente com pornografia. No meu caso, os meus três livros têm cenas de sexo explícito, e essa é a parte pornô. Mas a coisa não se encerra aí. Existe um roteiro, um desenvolvimento psicológico de personagens, a construção da trama, o conflito, os entraves da escrita e suas soluções. Então, pelos dois motivos, hoje tenho segurança de que o que faço é literatura. Escrevo bem a parte pornográfica e a insiro, com coerência, dentro de todo o resto. Há uns meses atrás, o Jô Soares, entrevistando um escritor em seu programa, disse que excluir a pornografia da literatura é mero preconceito. Concordo plenamente. Se o escritor pode descrever, com todos os detalhes, um encontro dos personagens para um lanche, porque na hora da transa tem que ir só até a parte em que a porta do quarto se fecha? Ali dentro não vai acontecer alguma coisa, que pode também ser descrita em detalhes? O sexo faz parte da vida. Assim como todo mundo lancha, todo mundo também transa.



Você acredita que seus livros não foram ainda bem examinados pela crítica literária porque são pornográficos? Você sente algum tipo de preconceito do leitor, digamos, mais “culto” em relação à pornografia muito direta e crua em seus livros?

Este preconceito é visível a olho nu e entendo, porque eu mesmo tinha muito preconceito. Lembro de um leitor, que se tornou bem próximo, insistindo comigo sobre a qualidade, ainda no primeiro livro. Eu reagia, falando que não tinha a intenção de ficar conhecido como “escritor pornô”. Hoje consigo compreender muito bem o que ele queria dizer. Fico até admirado como ele conseguia enxergar tão mais na frente, e tão mais claramente, que eu mesmo. Agora, não associo este preconceito ao leitor mais “culto”, até porque tenho leitores bastante cultos e nem por isso deixam de ler e gostar dos meus livros. Acho que é mais o medo da exposição. A pornografia é uma das coisas mais consumidas no mundo, mas se você for olhar, parece que é uma das menos, porque raras são as pessoas que assumem consumir. Gay então, piorou. O armário continua sendo uma realidade muito presente. Pelo lado da crítica especializada, pode ser também que eu ainda não tenha sido “descoberto” por ela, pode ser que ainda não tenha sido provocada o suficiente para “me ler”. Tenho alguns casos isolados. Afonso Borges, que é o idealizador e realizador do maior projeto literário do país, o Sempre Um Papo, leu dois dos meus livros. Na época, ele tinha um “blog de rádio”, Mondo Livro, um programa curto onde falava de literatura. Uma das edições foi dedicada ao meu trabalho, onde ele falou textualmente: “Augusto Treppi ou Igor Capezzi? Não importa. Este autor, que se oculta em heterônimos, é um interessante escritor. A sua temática, homossexual mostra um mundo carregado de preconceito, mas cada vez menos oculto. E, para falar a verdade, tanto faz. O importante é que este é um bom escritor. E que faz literatura erótica de qualidade. Em tempo – não recomendado para menores de dezoito anos.” Veja bem, um homem, hétero, pai de crianças, que vive literatura 24 horas por dia há 25 anos. Uma pessoa de respeito no meio, mas, sobretudo, uma mente aberta. Além dele, que o fez publicamente, já recebi outras opiniões favoráveis, em conversas privadas. A questão pra mim é essa, alcançar as pessoas dispostas a ler, para então depois dizerem se gostaram ou não. Com toda sinceridade, não sou alguém em busca de elogios, mas de análises sinceras que me façam crescer.

Outro ponto importante em seus dois livros é a questão do sexo como forma de poder. Como você enxerga a relação sexo e poder?

Sexo é poder. Para confirmar esta afirmação basta ver quantas pessoas deixaram suas fortunas serem dilapidadas por alguém com quem tinham relações sexuais. Quantos homens influentes tiveram suas vidas desestruturadas, perdendo cargos, posições e poder em função de outras que tinham como instrumento somente o sexo? Riqueza, inteligência, cultura, formação acadêmica e um vasto etc são instrumentos de poder mas, a maior parte dos que os detêm, sucumbem àqueles que têm o poder do sexo.

Ainda na chave sexo e poder, existe algo de subversivo em seus dois primeiros romances. O dominador, por exemplo em “Dominação”, é um negro pobre que tiraniza um branco rico e no “Cama King Size”, temos um nerd dominando dois garotões populares. Como você fez essas construções de personagens historicamente reprimidos socialmente serem os algozes de seus repressores? No sexo é possível essa inversão? Estaria ai uma das bases do sadomasoquismo?

Eu gosto sempre de surpreender o leitor. Isso ocorre também no “Obsessão”. Gosto mesmo de subverter os clichês. Não necessariamente o rico terá poder sobre o pobre, o grande sobre o pequeno, o mais velho sobre o mais novo. Na vida, sabemos que isso acontece sim, mas não é uma generalização de 100%. Mostro pessoas de atitude que, ao contrário de se sentirem limitadas pelos poucos recursos, sejam físicos ou financeiros, potencializam seus atributos, acreditando em si mesmas. Através do sexo então, é totalmente possível essa inversão. A chamada “pegada” é poderosa e determinante. O “ser desejado” geralmente tem total ascensão sobre o “ser desejante”, ainda que os dois desejem, porém de formas diferentes. Todas as relações presentes nos meus livros são consensuais, no final das contas ninguém é forçado a nada. Mesmo no “Dominação”, com toda violência explícita, percebemos que o submisso se realiza em sua submissão. Neste consenso, é a atitude que conta e a natureza humana é diversa. Normalmente aquele que domina acaba por encontrar outro que, no íntimo, deseja ser dominado. Por trás de toda essa subversão dos clichês, é importante que tudo seja o mais próximo da verdade, mesmo numa literatura de ficção. Assim, procuro dar aos personagens as características que façam o leitor acreditar na possibilidade daquela relação ter se estabelecido. Quanto ao sadomasoquismo, eu vejo como um jogo sexual. Ele não se aproxima da verdade, é apenas lazer. Sempre digo que sadomasoquismo é brincar de casinha. Nos meus livros não trato de relacionamentos SM, pois o jogo que se estabelece é sempre cotidiano e constante, e não feito com hora marcada.

As cenas de sexo de seus livros são sempre muito ágeis, bem escritas, mas enfadonhas pois muito parecidas e repetitivas, com leves mudanças, como nos filmes pornográficos. Existe aí uma crítica a como sexo e monotonia se alimentam?

Não, na verdade nunca tinha pensado sob este aspecto, mas é bem interessante a ideia desta crítica. O que ocorre é que o ato sexual não tem mesmo muitas variações, o que também é claro nos filmes, como você mesmo citou. O que variam são as situações que levam a ele e o contexto. Neste ponto acho que a variação acontece bastante nos meus livros. No ato em si, por mais que eu procure criar e alguns leitores até chamem atenção para estas criações, em alguns aspectos acaba ficando repetitivo mesmo. Aí, quanto mais cena de sexo tem o livro, mais risco de se encontrar partes repetitivas. Não sei se fruto de aprendizado, mas percebo que a cada livro isso muda um pouco. Não que tenham menos sexo, mas ele vem mais dosado. No “Cama King Size” isso já é perceptível em relação ao “Dominação”. No “Obsessão”, essa característica se acentua, e creio que ele traz um “volume” mais apropriado de transas. Considero isso positivo, porque na medida em que o tempo foi passando, fui percebendo uma alteração no perfil do meu leitor, provavelmente pelo fato da plataforma ir crescendo. Antes, eu pensava que seria um escritor de nicho, um nicho que não se preocupa com a repetição e nem a considera enfadonha, pelo contrário, procura sexo a cada virada de página. Hoje, me surpreendo de ver quantos leitores héteros, mulheres inclusive, me leem, sem contar gays interessados nas questões que extrapolam o pornô nos meus livros. Sei que vários deles se excitam com as cenas, mesmo os que não são gays. Mas muitos também estão mais envolvidos pela trama. Nesse aspecto, acho positivo que o sexo explícito, cinematográfico, permaneça como uma das minhas marcas. Mas, como dito, “uma das” e não “a”.

Quem é Augusto Treppi? Como ele surgiu, tem uma história, idade...? E quem é Igor Capezzi?

A história de Augusto Treppi acabei mais ou menos contando quando falei sobre a decisão de escrever. Ele surgiu no momento em que o meu primeiro livro, ainda sem pretensão de ser livro, começou a ser escrito na Internet, mas, pessoalmente, ninguém de fato me conhece. Já Igor Cappezi foi um heterônimo criado para o segundo livro, “Cama King Size”. Como o “Dominação” veio com muita força, e é uma história bem fetichista, inclusive com muita violência, na época achei que seria bom diferenciar, pelas características mais “amenas” e românticas do novo livro. Hoje, penso que não havia essa necessidade, e nem foi lá uma grande ideia. Tanto que voltei a ser Augusto Treppi no “Obsessão”, que assim como o “Cama King Size”, também não é fetichista como o “Dominação”.

Dê informações de como adquirir seu livro.

A primeira loja que sempre recomendo é a www.comprelivrosgls.com.br, porque ela tem todos os livros em todos os formatos, tanto impressos quanto e-book. Além disso não cobram frete dos impressos e fazem muitas promoções. Agora, eles podem também ser encontrados em outras livrarias, como a www.livrariacultura.com.br, www.ciadoslivros.com.br, www.martinsfontespaulista.com.br, www.gugah.com.br e www.allprinteditora.com.br. Breve vão estar no site da Simplissimo, que passa por reformulação, e também na Livraria Saraiva e Amazon. Nem todas têm todos os livros, mas através dos mecanismos de busca é fácil verificar pelos títulos. As versões impressas do Dominação e do Cama King Size são vendidos também em alguns Sex Shoppings, já o Obsessão só saiu em e-book.

Escrito por Vitor Angelo às 01h24

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Mais um caso de violência homofóbica na região da Paulista. Como proceder?

Na noite de quinta-feira, 22, mais um lamentável episódio que parece se repetir aconteceu na região da Paulista: Cinco gays foram agredidos por um grupo dentro da estação Consolação de metrô. Eles foram chamados de “bichinhas” e logo depois começou a pancadaria.

Como informa o jornal O Estado: “No momento da briga, havia três seguranças na estação - e eles estavam no mezanino. Os agentes do Metrô chegaram dez minutos depois do confronto. Os garotos seguraram a porta para que o trem não partisse e apontaram para os seguranças dois agressores escondidos em um vagão. Todos foram identificados, mas depois liberados. As vítimas dizem que foram coagidas a não registrar boletim de ocorrência naquela noite, porque 'não daria em nada'. O Metrô diz que orientou a registrar na delegacia da Barra Funda, o que eles não fizeram por opção pessoal. As vítimas prestaram depoimento ontem [sexta-feira, 23] na Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi). A polícia pediu as imagens das câmeras de segurança do Metrô.

A discussão nas redes sociais foi sobre a possível orientação, depois negada, pelo metrô de não fazerem B.O. (Boletim de Ocorrência) pois não iria "dar em nada". Existe muita desinformação de como proceder em caso de ataque homofóbico. O Blogay procurou dois especialistas, em São Paulo e no Rio de Janeiro, para darem alguma orientação de como proceder perante a violência homofóbica.

Franco Reinaudo é coordenador geral do CADS (Coordenadoria de Assuntos de Diversidade Sexual) em São Paulo. Ele explica: “A vítima de agressão (física) homofóbica deve procurar a delegacia mais próxima ou se preferir a DECRADI (Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância) e fazer Boletim de Ocorrência (B.O.) pelo crime de 'lesão corporal". Em caso de ofensa homofóbica (xingamentos, humilhações etc), fazer o B.O. de 'injúria' e/ou 'difamação' - na injúria, a ofensa é ouvida/lida somente pela pessoa ofendida; na difamação, a ofensa é proferida perante outras pessoas. Em todos os casos, a vítima pode entrar com ação civil de reparação de danos morais, para ser indenizada por conta da agressão/discriminação/humilhação sofrida(s)”.

Além disso, ele conta que a pessoa agredida tem direito a recorrer a uma lei anti-homofobia muito importante no estado paulista, mas pouco conhecida: “A vítima poderá, ainda, apresentar denúncia relativa à Lei Estadual Paulista n.º 10.948/01 à Comissão Processante Especial da Secretaria da Justiça e da Defesa da Cidadania do Governo do Estado de São Paulo. Essa lei proíbe qualquer ato de violência, constrangimento, intimidação, vexame ou discriminação por conta da orientação sexual ou identidade de gênero da pessoa LGBT e pune referidos atos com pena de advertência ou multa no caso de pessoas físicas ou, ainda, suspensão ou cassação de licença de funcionamento em caso de estabelecimentos comerciais. No caso de funcionários públicos, as punições se darão com base no Estatuto dos Funcionários Públicos (que basicamente traz como punições advertência, suspensão e, no limite, exoneração do funcionário)".

Na cidade de São Paulo, Franco avisa: “Os munícipes podem também procurar o Centro de Combate a Homofobia – CCH, que acolhe as vítimas de intolerância em decorrência de sua orientação sexual e identidade de gênero. O centro possui uma equipe multidisciplinar, composta por advogado, psicólogo e assistente social que orienta a vítima e faz o acompanhamento dos casos, quando necessário. Ele fica no Páteo do Colégio, n.º 5, no Centro da Cidade de São Paulo – prédio da Comissão Municipal de Direitos Humanos (telefone: 3106-8780). Ressaltamos a importância das vítimas de homofobia procurarem o CCH, pois os dados são incluídos no ‘Mapa da Homofobia Denunciada da Cidade de São Paulo’, que embasa estudos e implementação de políticas públicas voltadas à promoção dos direitos da população LGBT”.

Carlos Tufvesson, além de estilista renomado, é coordenador especial de Diversidade Sexual da Prefeitura do Rio de Janeiro. “A homofobia sofrida em estabelecimentos comerciais e órgãos municipais do Rio de Janeiro deve ser trazida pelo cidadão à Coordenadoria Especial da Diversidade Sexual através do telefone 21-2976-9137 ou do e-mail contato@cedsrio.com.br  ou nosso site www.cedsrio.com.br onde, além de um formulário para denúncia e esclarecimentos, pode-se encontrar informações sobre nossas ações, clipagens e, o mais importante, a legislação atualizada sobre direitos LGBT municipal estadual federal e internacional”.

Ele também conta sobre uma lei importante no combate à homofobia: “Temos a lei 2475/1996 que pune estabelecimentos comerciais e órgãos municipais que discriminarem qualquer pessoa por causa de sua orientação sexual. Se o ato for praticado por pessoa física, recomendamos entrar em contato com a SuperDir através do Disque Cidadania LGBT: 0800 023 4567”.

Tanto Carlos como Franco acreditam que a denúncia é o primeiro passo contra a impunidade de atos de violência contra gays e não fazê-la é estar conivente com os homofóbicos.

Se você participa de alguma ONG ou órgão municipal ou estadual do país que tenha alguma lei ou maneiras de combate à homofobia, entre em contato com o blog (blogay.folha@uol.com.br), aqui o espaço de divulgação é garantido.

Escrito por Vitor Angelo às 23h17

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Pesquisa realizada pelo Senado mostra que maioria é a favor da não discriminação por identidade de gênero ou orientação sexual: o casamento gay

O Senado Federal realizou uma enquete, entre os dias 01 a 15 de dezembro, sobre a proposta da PEC 111/11, de autoria da Senadora Marta Suplicy (PT-SP), que inclui entre os objetivos nacionais a não discriminação por identidade de gênero ou orientação sexual. Participaram cerca de 20.654 internautas. 60,1% votaram a favor contra 39,9%.

Uma das discriminações contra os LGBTs mais importantes é em relação ao casamento. O Estado não reconhecer os mesmos direitos para casais que vivem juntos apenas por eles não serem heterossexuais, é ferir a raiz dos direitos de igualdade do cidadão. Antes que alguma amiga arranque a peruca e pergunte: mas o STF (Supremo Tribunal Federal) não aprovou a união estável para casais homoafetivos? É importante saber que existe uma pequena diferença entre casamento civil e união estável.

O casamento civil é juridicamente uma união formal, isto é, os documentos mudam de status para casado, além da opção de adotar o nome do companheiro ou companheira. Já a união estável é totalmente informal. Mas a grande diferença acontece no caso de morte e herança de um dos membros do casal. O casamento civil garante que o parceiro automaticamente se transforme em herdeiro e na união estável não é bem assim que as coisas acontecem.

Por isso, muitos casais gays pedem, logo após conseguirem o certificado de união estável, que ele se transforme em casamento civil. Foi o que o estilista Carlos Tufvesson e o arquiteto André Piva, juntos há mais de 16 anos, tentaram recentemente. Carlos, em entrevista ao Blogay conta o ocorrido: “Sinto que foi apenas a triste evidência que, no nosso país, nós homossexuais, mesmo após a posição unânime do STF, estendendo os mesmos direitos que os casais heterossexuais têm aos casais do mesmo sexo, ainda somos tratados como subcidadãos. Ou seja: não podemos ter os mesmos direitos que qualquer outro cidadão brasileiro. De fato, o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro negou o nosso pedido para a conversão da união estável para casamento civil”.

Mas Carlos e André não desanimaram, entraram com recurso no STF e aguardam julgamento: “Seguimos acreditando na justiça do nosso país. Confiamos nela, mas é triste ter de lutar por algo que já é direito reconhecido. Parece que nossa luta por direitos iguais e por uma sociedade mais justa, não terminará nunca”.

A maneira mais bela de combater uma negativa do judiciário fluminense foi dizer um sim. O casal organizou a celebração de casamento no MAM-RJ (Museu de Arte Moderna) no dia 14 de novembro.

"Fizemos uma grande festa, pois afinal o casamento é a manifestação da vontade dos cidadãos diante de um juiz ou de testemunhas para posterior validação judicial. (art. 1511 Cod. Civil)’”, conta Tufvesson. “E no nosso caso, a presença de testemunhas foi expressiva e notória, não só de vários setores da sociedade como também da nossa família, que, aliás, terminou sendo o ponto alto da noite com minha mãe no final da cerimônia declarando: "Pelo direito divino de mãe, em nome das leis do amor, eu vos considero casados".

Enquanto isso na Holanda:

O país da rainha Beatriz foi o primeiro do mundo a reconhecer o casamento homoafetivo, em 2001. Zé Edu é brasileiro e se casou em novembro com Marcel Heyman.

Ele conta ao Blogay: “Foi superoficial e exatamente igual ao casamento de héteros. Você vai à prefeitura, com as testemunhas, familiares e amigos mais próximos e sai casado, com uma certidão de casamento que é igual e dá exatamente os mesmos direitos. Aqui na Holanda, a única restrição aos casais gays é que não podem adotar crianças que não sejam holandesas. Isso porque os holandeses adotam muitas crianças estrangeiras (de países catóticos e muçulmanos) e o governo tem medo que esses países parem de mandar crianças para adoção na Holanda se souberem que as crianças possam vir a ser adotadas por casais gays. Adotar crianças holandesas pode”.

Zé relata que mora com o Marcel há 15 anos.  “Há 10, tínhamos comprado uma casa juntos, mas não tínhamos nada que oficializasse a nossa relação. Agora com o casamento, tudo o que diz respeito à divisão de bens, herança, direito à pensão do outro, isso tudo fica resolvido. Existe até a possibilidade de mudar de sobrenome, que eu passei, mas o Marcel não. Agora se chama Marcel Ramos Silva Heyman. Temos planos de emigrar pro Brasil nos próximos anos e esperando que o fato de sermos casados ajude de alguma maneira a oficializar a situação do Marcel no Brasil (o inverso do que a maioria das pessoas faz...).

E termina: “Já éramos uma família há muito tempo. Conhecemos bem a família um do outro, somos os dois padrinhos de um menino lindo de 11 anos”.

Não entender que o conceito de família é maior que o da união de um homem e uma mulher é não entender que o mundo mudou e, nesse caso, para que o conceito de afetividade ampliasse e acima de tudo, o amor reinasse acima de antigas convenções.

Escrito por Vitor Angelo às 12h46

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Dilma Rousseff é criticada e vaiada em Conferência LGBT. Presidente precisa aprender a diferença entre opção e orientação sexual

Na quinta-feira, 15, começou em Brasília a 2ª Conferência Nacional de Políticas Públicas e Direitos Humanos LGBT. E, mesmo com uma plateia lotada de petistas, a presidente da República Dilma Rousseff foi criticada e vaiada pelas alianças com setores conservadores que lutam contra os direitos gays. Aos gritos de: "Ô Dilma, que papelão, não se governa com religião" e "a Dilma pisou na bola, homofobia continua na escola", militantes marcaram posição contra uma das linhas da política do governo atual em relação aos LGBTs.

Diferente de Lula, que esteve presente na 1ª Conferência e ainda levou oito ministros juntos, Dilma não apareceu na abertura e apenas três ministros compareceram ao evento. Isso foi muito sentido pelos presentes que gritaram o nome do ex-presidente durante a abertura. Porém, a presidente esteve 3ª Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres que tinha ocorrido alguns dias antes. É lamentável Dilma ainda não perceber que as questões da homofobia e da misoginia andam juntas, são de mesmo fundo.

A travesti Jovanna Baby foi muito clara no descontentamento do segmento LGBT com o atual governo: "Nossa presidente esteve na ONU e não teve coragem de falar de homofobia [...] Enquanto acordo com evangélicos for feito nas cortinas do palácio, o sangue das travestis vai continuar escorrendo nas ruas".

Ela se referia ao recente discurso no dia 19 de setembro, em Nova York, durante o Colóquio de Alto Nível sobre Participação Política de Mulheres, que Dilma afirmou o Brasil é país “tolerante”, “respeitoso”, mas se esqueceu de citar o recorde de assassinatos de homossexuais em terras brasilis.

Pelo menos, no discurso, ela utilizou o termo “orientação sexual” e não “opção sexual”, palavra que mencionou para explicar o veto do kit Escola sem Homofobia. Muitas das vaias e críticas à Dilma na conferência foram por ter usado o termo opção sexual.

Parece um detalhe bobo, mas não o é. A liberdade das palavras, que foram cerceadas por um discurso politicamente correto fechado é muito prejudicial para todos. As palavras devem ser livres – desenvolverei depois em outro post a minha predileção pela palavra viado a homossexual e mesmo entendendo o sentido histórico da rejeição da palavra homossexualismo por muitos militantes, acredito que uma inversão pode ocorrer em nome da liberdade e da subversão. Mas não existe mediação para quem troca opção por orientação sexual, sabe-se de que lado está quando adotamos uma ou outra palavra.

Ao utilizar a palavra opção, você acredita que sua sexualidade pode ser mudada ou corrigida, ou ainda que por perversão e safadeza você escolheu ser gay ou lésbica. O próprio senador Magno Malta (PR/ES), no famoso dia 08 de dezembro, deixou claro que não se opta por ser negro, nem deficiente, mas se opta em ser homossexual. Isso serve para legitimar as chamadas correções que tanto certas igrejas como “psicólogos” tentam impor aos gays, lésbicas, bissexuais e travestis.

Já orientação, no pai dos burros, diz respeito à: 1. Ato ou efeito de orientar(-se). 2. Tendência a seguir, uma direção, objetivo; inclinação. Isto é, o ato é íntimo, faz parte de sua individualidade, você se orienta. É uma conquista, não uma escolha como querem os que falam opção sexual.

Para terminar, um exemplo bem claro presidente Dilma, a diferença entre opção e orientação sexual é a mesma das pessoas que dizem que a senhora foi uma terrorista e outras que acreditam que foi guerrilheira. Esteja ciente disso!

Escrito por Vitor Angelo às 18h08

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Homofobia é crime sim, senhor João Pereira Coutinho

Em artigo para a Folha, o colunista João Pereira Coutinho alega que homofobia não é crime. Em sua argumentação, além de uma escabrosa visão do julgamento de Oscar Wilde sem a devida apreciação histórica, ele afirma que “é perfeitamente legítimo que um heterossexual não goste de homossexuais. Como é perfeitamente legítimo o seu inverso. Vou mais longe: no vasto mundo da estupidez humana, é perfeitamente legítimo não gostar de brancos; de negros; de asiáticos; de portugueses; de brasileiros; de judeus; de cristãos; de muçulmanos; de ateus; de gordos ou de magros. A diferença entre um adulto e uma criança é que o adulto entende que o mundo não tem necessariamente de gostar dele”.

Confusa também é sua argumentação entre gosto e civilização. Ou como os reacionários agora proclamam: liberdade de expressão e direitos humanos (esse chatos!, adoram sublinhar). Ora, é quase consenso que no capitalismo tardio – em um processo que podemos identificar já no cristianismo - rumamos para uma espécie de individualização, as tendências de mercado cada vez mais dialogam com uma possível individualidade do que com o chamado coletivo, por mais que isso faça surgir novas problematizações. Mas, no campo do indivíduo, eu gosto ou não de pessoas  - claro que questões estéticas, étnicas e religiosas podem interferir. Mas a vida é muito dinâmica e é possível um gay ser amigo de um evangélico (grupos que hoje parecem antagônicos). Eu, aliás, (já no campo das individualidades) tenho vários excelentes amigos evangélicos que sabem da minha orientação sexual e não desgostam nem me condenam por isso. Caminhamos em campos distindo, sr. João Pereira Coutinho, um mundo que os indíviduos estão acima da coletividade ou de grupos seja étnicos, sexuais ou de qualquer natureza.

Aliás, gosto se refina, se civiliza. Qualquer um que vive sabe disso, que com informação e educação, certas coisas aprendemos a gostar.

Outra ideia que me parece equivocada é o fato de a homofobia pertencer aos heterossexuais. “É perfeitamente legítimo que um heterossexual não goste de homossexuais”. A resposta que destrói essa argumentação vem de seu próprio texto de Coutinho: “De igual forma, ninguém de bom senso negará que persistem crimes medonhos contra homossexuais, seja no Brasil ou na Europa, porque os agressores, normalmente homossexuais reprimidos, não gostam de se ver no espelho”.

Muito já se debateu sobre a homofobia introjetada de grande parte dos homossexuais, assim como o fato da maioria dos homofóbicos serem homossexuais mal resolvidos, o que é uma cruel verdade. Como já citei La Boétie algumas vezes, as minorias são vítimas de sua própria escravidão, a voluntária. Então, não é uma questão de uma disputa entre homossexuais e heterossexuais, ou o fato de um não gostar do outro e sim entre intolerantes e civilizados. A homofobia pertence a todos (gays ou não). E se o mundo civilizado pretende-se cordial, não pode ter espaço para intolerância.

Além disso, a homofobia não é um crime apenas físico, muitos adolescentes gays se suicidam pelas pressões psicológicas nas escolas. A violência, na homofobia, está além da brutalidade física assim como o alvo está além dos homossexuais. A homofobia pertence a todos (gays ou não).

Heterossexuais são vítimas de atos homofóbicos e a cada dia mais no Brasil temos registros de casos desse gênero. O pai que teve a orelha decepada por estar abraçado ao seu filho e ser confundido com um gay não é um fato isolado, infelizmente.

Negar a homofobia como crime, é negar o crime de racismo ou o antissemitismo e acreditar que Hitler apenas não gostava dos judeus. Até porque quando não gostamos de alguma coisa, simplesmente nos afastamos e não tentamos exterminá-la numa espécie de guerra santa. Explico: se eu não gosto de quiabo, eu simplesmente não como, agora eu não vou nas feiras tentar proibir que se venda quiabos pros outros. Mas quem sabe, um dia, fazem um quiabo da forma eu comece a gostar? Isto é civilização. Nesse exemplo banal está toda a resposta para entendermos também a perversão da proclamada liberdade de expressão defendida pelos reacionários contra os homossexuais.

No mundo civilizado, senhor João Pereira Coutinho, homofobia é crime sim.

 

PS: A pesquisadora de cinema Luciana Côrrea de Araújo me enviou essa tira de Laerte que, acredito, compõe e complementa o texto acima de forma bem sintética, mas não menos profunda:

Escrito por Vitor Angelo às 22h09

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Herbert Daniel, coragem e exemplo

Herbert Daniel faria 65 anos nesta quarta-feira, 14. Muita gente desconhece, mas ele foi um grande ativista dos direitos homossexuais no Brasil e não só deles, mas de toda a construção de uma cidadania que ainda engatinhamos no país.

A lembrança que tenho dele é de uma entrevista na extinta TV Manchete, nos anos 1980, que, já doente, vítima da Aids, ele falava que ao pensar na morte, acreditava que sentiria muita falta de tomar café com leite.

Dessas singelezas que nascem grandes homens. Ele não sentiria falta da adrenalina da época da guerrilha, dos sequestros de embaixadores, nem do exílio, nem dos grandes encontros com brasileiros importantes da nossa história. Não, o que sentiria falta era da mistura genial do café e do leite.

Herbert, o guerrilheiro da época da ditadura militar, que na clandestinidade era chamado de Daniel, resolveu assumir esses dois lados, o conhecido e o desconhecido, Herbert e Daniel. Aliás, ao assumir seu nome de guerrilha, ele traz à luz o que poderia ser obscuro. E foi sempre assim com ele. Ao contrair o vírus HIV, não teve temor de, em uma época que a doença era chamada de peste gay, dizer com todas as letras que estava doente.

Não foi preso, isto é, a polícia não conseguiu nem matá-lo nem prendê-lo. O que apenas o prendeu foi a literatura e seu amor à liberdade. Escritor, ele é autor de “Jacarés e Lobisomens, Dois Ensaios sobre a Homossexualidade", "Passagem para o Próximo Sonho", "Meu Corpo Daria um Romance", "Vida antes da Morte" e do texto dramatúrgico "As Três Moças do Sabonete”.

Companheiro de Carlos Lamarca nos ideiais de mudanças e de Claudio Mesquita nas questões do coração, ele soube fazer a autocrítica e lembro de falar algo como: será possível uma revolução que a questão homossexual era trancada no armário, que era um assunto que não entrava na pauta?

“Quis estipar o sexo antigo. Aos poucos, naquele ano, adotei um sexo futuro, novo, que naquele instante se tornava pura abstinência. A última vez que trepei com alguém deve ter sido em meados de 67. Abstinente, passei toda a clandestinidade. Sete anos. (Não posso deixar de escrever o prometido elogio à punheta, senão dificilmente poderei fazer alguém compreender a minha clandestinidade. Porque creio que se tivesse apagado meu sexo nunca teria acreditado na militância. Um militante sem sexo é um totalitário perigoso. Um punheteiro é apenas um confuso ingênuo e esperançoso.)”, escreveu.

Salve Herbert Daniel!

Escrito por Vitor Angelo às 20h52

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Beijo gay provoca tumulto em show da funkeira Valesca Popozuda

                    Diego Padgurschi / Folhapress

No show de Valesca com a Gaiola das Popozudas, na boate Pier 27, em Vila Velha, Espírito Santo, na madrugada de sábado para domingo, 11, um beijo gay foi a faísca para uma briga que deixou a funkeira acuada em seu camarim até às 5 horas da manhã.

Segundo o Portal PS, nesta segunda-feira, 12, "um grupo de rapazes não teria gostado de um casal gay que teria se beijado na área Vip, próximo à escada de acesso ao local, no segundo andar da Pier 27. O produtor cultural Rubinho Neto contou o que viu: 'Eu estava lá e a briga foi no final. Por conta de um rapaz que beijou o outro lá em cima. Tiro não teve, isso já é mentir demais. Eu estava do lado dos dois. Os funkeiros não gostaram do que viram e um deles apertou o extintor de incêndio com pó quimico sobre os dois –'pra apagar o fogo deles'. Um amigo das bichas tacou um garrafa nos caras e aí começou tudo'".

Testemunhas contam que teve gente ensanguentada que acabou sendo atendida pelo Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência).

O que é de se estranhar é que o funk, com sua alta voltagem sexual, com letras com sexo explícito, tendo figuras como Lacraia, tenha admiradores que ainda estranhem dois homens se beijando.

O mais triste ainda é um beijo causar tanta violência. Vem Lacraia, ensinar pra esses agressores ofendidos qual a real natureza sexy do funk carioca.

Atualizado no dia 13/12/2011:

A assessoria da MassaCult, que organizou o show de Valesca e a Gaiola das Popozudas no Píer 27, em Vila Velha, enviou um comunicado para o Blogay:

"A Píer 27 e MassaCult informam que em nenhum momento pessoas, equipe ou clientes, entraram com qualquer tipo de arma na boate. Não houveram tiros no interior da casa. Os barulhos escutados foram de vidro quebrando e mesas caindo. Gostaríamos de ressaltar que em nenhum momento, desde às 23h (quando a casa abriu) houve qualquer tipo de manifestação preconceituosa entre heterossexuais e homossexuais, ou vice-versa. Assim como não houve uma "invasão heterossexual" à casa. A presença de público era mista e não destinada, tão e somente, ao público LGBT.

Houve uma confusão que foi separada pela equipe de segurança da casa. Com isso, o empurra-empurra, alguns clientes ficaram nervosos e assustados. Todos foram prontamente orientados a se dirigirem às áreas externas da boate (varanda), que foram imediatamente abertas para que as pessoas pudessem circular. Em nenhum momento as saídas de emergência estavam trancadas. A artista, assim como equipe e alguns clientes foram encaminhados para o backstage, buscando a segurança de todos".

Escrito por Vitor Angelo às 22h24

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Blogay Blogay é editado pelo jornalista e roteirista Vitor Angelo. Foi colunista da seção GLS da Revista da Folha.


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