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A contribuição dos gays, lésbicas e travestis para o mundo

 

Patti Smith ensina que qualquer maneira de amor vale a pena

Causou muita comoção – pelo menos nos comentários – quando disse no post anterior que quem gosta de travesti e transexual é hétero. Continuo pensando assim, porque muitas vezes generalizar é preciso. Mas é bom ressaltar que a sexualidade humana é muito mais ampla e complexa do que julga o nosso vão papai-mamãe. Podemos falar que bissexuais e pansexuais também desejam essas sereias, mas podemos ir além dos gêneros e da orientação sexual. Em São Paulo dos anos 1990, vimos com surpresa e curiosidade nas rodas undergrounds e de “modernos” um casal muito feliz formado pela trava Gabi e a lésbica Lu Moreira, ex-baterista da banda As Mercenárias. Elas foram até matéria da Folha de São Paulo na época e foi lá que fiquei sabendo que Gabi tinha filho com uma outra mulher.

O exemplo acima coloca em xeque os casulos que tanto héteros como gays tentam se enfurnar. Em matéria de amor, nem a sexualidade – apesar de muito poderosa – consegue se impor. Talvez essa seja uma das lições mais belas que o livro “Só Garotos”, da roqueira Patti Smith: o amor está além de tudo isso.




Com a escrita em uma corda bamba, pois a todo instante parece que a Patti Smith vai escorregar para o clichê mais tenebroso, é encantador o modo como narra a relação de amor entre ela e o fotógrafo Robert Mappletorpe. Ele se apaixona por ela, depois descobre ser homossexual, tem relações com homens, mas retorna para aquela que ele sabe ser a única que ama a arte da mesma maneira que ele.

Numa das passagens do livro, quando fica sabendo das traições de Robert com um amigo, ela é tão franca e real: “Sua atração por homens era desgastante, mas nunca me senti menos amada por isso. Não era fácil para ele romper nossos vínculos físicos, isso eu sabia. Robert e eu ainda mantivemos a nossa promessa. Ninguém abandonaria ninguém. Nunca o vira pela lente da sexualidade. Minha imagem dele permanece intacta. Ele foi o artista da minha vida”.


“Até hoje quando olho para essa foto, nunca me vejo. Vejo nós dois”. Patti Smith

Enfrentaram muitas acusações, que Robert queria esconder das pessoas que era homossexual, que ela se aproveitava dele e que não eram um casal de verdade. Mas o apoio, o carinho e o respeito entre eles transcendia as mesquinharias dos casulos, das generalizações. Era amor!

Mesmo depois de separados e com outros parceiros, a conexão permanece forte. É o amor! Pouco importa se ele era gay, a poesia venceu! Não, o amor não está para a amizade assim como a prosa para a poesia. Neste caso amor, amizade, poesia e prosa foram uma única coisa!

Escrito por Vitor Angelo às 17h25

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A VANGUARDA DE ARIADNA E A RETAGUARDA DA GLOBO

Todos os gays e lésbicas sabem que na linha de frente sempre estão as travestis e transexuais [recuso a usar artigo definido masculino nesses dois casos]. São elas as primeiras a receber pedradas, xingamentos e desprezo. Tudo porque desafiam os limites do que é ser homem e do que é ser mulher e - como Prometeus contemporâneos - levam luz para questões de inadequações de corpo e gênero. Mas nem por isso merecem que a grande águia coma seus fígados, já tem urubus demais em volta perturbando sua vontade de unir ser e parecer.

Desde que apareceu como uma das participantes do Big Brother Brasil 11, Ariadna Thalia virou o centro das atenções do programa. Em uma ação orquestrada da Globo com suas centrais de notícias foram aparecendo primeiro fotos suas - ainda com pênis - anunciando programa de prostituição na Europa. Depois, vieram entrevistas com seus “amigos” falando que a sister era transexual, que viveu na Itália e fez a transgenitalização, também conhecida como operação de mudança de sexo, na Tailândia. E por fim, um vídeo que ela mostra sua “nova face” também é divulgado e viralizado. Tudo isso antes de começar o reality show.

Com tantos requintes de  “exotismo” para a grande massa, uma certa perversidade tomou conta dos corações. Qual vai ser o bofe que vai ficar com Ariadna? Quando um dos brothers souber que beijou uma transexual, será que ele irá dar porrada nela?

Armado o circo, Boninho e sua trupe não poderiam ter melhores esperanças para o sucesso do programa, mas eles esqueceram dos leões que eles alimentaram por tanto tempo fora da casa – uma boa parte do público.

[PAUSA: É muita ingenuidade acreditar que um reality é feito por elementos da chamada objetividade, existe na verdade uma dissimulação do que o senso comum acredita ser o documentário, mas o alto grau de intervenção desde a edição aos ângulos das câmeras até as chamadas provas, mostram algo muito bem controlado. Claro que como tudo, até na própria ficção, sem os 100% de controle]

Faz 4 edições – se não estou enganado, desde que Boninho resolveu ter uma intervenção ainda mais direta no programa - que os vencedores são jovens, brancos, héteros e homens. Alemão, Rafinha, Max e Dourado são exemplos do “macho adulto sempre no comando”. De alguma maneira, educou-se esse público para uma imagem do vencedor.

De alguma forma, Ariadna representava perigo na ordem estabelecida por anos no programa. Se ela ficasse com um possível “macho alfa”, ela quebraria uma lógica vitoriosa até então. E novamente evocando Prometeu, ela traria luz para diversas questões perversas. Todos nós gays sabemos que quem gosta de travesti e transexual é hétero, mas essa verdade é muito difícil de ser revelada, até pelas próprias trans.

Outra perversidade é negar às trans o sonho de fazer a passagem, de se tornar mulher. A todo instante joga-se na cara das bonecas que mesmo elas operando, elas nunca serão femininas, elas nunca alcançarão o que desejam: unir o ser com o parecer. Contra isso, Ariadna negou em alto e bom som no dia de sua eliminação: “Eu sou mulher”.

Ariadna que nasceu Thiago atravessou essa fronteira, mas foi metralhada por 49% dos votos que pediram para ela sair da casa, do reality e dos canais de notícia. Como guerreira, ela esteve na vanguarda, como se chama a linha de frente do exército e a Globo com seu BBB novamente volta para sua retaguarda tão segura e higienista.

Parafraseando o velho ditado popular: Quem tem retaguarda tem medo.

Escrito por Vitor Angelo às 15h06

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PRA QUEM A GENTE DEVE DEITAR O CABELO

Muita gente acha que bicha surge assim, de um tubo de purpurina no Carnaval ou de um esquete de humor da TV aberta. E assim como surge, logo desaparece, levando junto o riso que possivelmente despertou.

Mas a história é outra e os homossexuais tiveram e têm um longo percurso. Esse blog não é fruto do acaso. Ele é uma das sementes que foi plantada por homens e mulheres que ousaram dizer o nome de seu amor. Sem as ações do grupo Somos, nos anos 1970, ou do jornal O Lampião da Esquina, ou ainda do Grupo Gay da Bahia e de Luiz Mott nada disso seria possível. Sem as projeções do Festival Mix Brasil, sem a gama de sites e revistas surgidas desde a década de 90 voltada para o público gay, sem a atitude até agora – infelizmente – única na grande mídia brasileira do jornal Folha de São Paulo ao criar em sua Revista uma seção chamada GLS que durou até o ano passado, e sem a ação positiva - em relação aos homossexuais - de uma parte da sociedade heterossexual, esse espaço não existiria.

Não podemos esquecer dos rostos (que ficaram anônimos pelas estátisticas) massacrados por sua orientação sexual nesse país que bateu o recorde em assassinatos de homossexuais em 2010, foram 250 casos. Não podemos esquecer das quá-quás que levaram bullying na escola, e das bees que ergueram seus cartazes de protesto em alguma parada gay do país.

Os homossexuais do Brasil têm um longo caminho com muitas personagens e pra todos eles devemos deitar o cabelo. Mas gostaria de explicitar minha homenagem ao escritor, cineasta e dramaturgo João Silvério Trevisan e o seu “Devassos no Paraíso”, uma espécie de levantamento histórico da vida gay nestes trópicos.

Podemos claramente chamar o projeto de Trevisan como nosso livro de formação e nele tem um trecho que muito me interessa: “No Brasil é arriscado referir-se a uma ‘comunidade guei’ tal como se pode fazer nos Estados Unidos, por exemplo. Nossas expressões de homossexualidades são tantas, e com tal diversidade, que chegam a ser conflitantes. Nessa mesma categorização tendem a se misturar discrepantemente homossexuais de todas as classes, profissões e estilos, desde profissionais de renome até pessoas à margem de tudo. Assim, temos um campeão de corrida com barreiras, Walmes Rangel [... ] e um jogador de vôlei como Lilico (Luis Cláudio Alves da Silva) [...] Num outro extremo [...] temos a figura mítica de Madame Satã [...] que foi um representante legítimo da verdadeira contracultura brasileira, segundo Paulo Francis”.

E é nessa diversidade que esse blog pretende se orientar, convidando héteros e quem mais quiser para um reflexão sobre sexualidade, sociedade e liberdade.

Que Carmen Miranda nos guie! Chica chica bum!

Escrito por Vitor Angelo às 23h00

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Blogay Blogay é editado pelo jornalista e roteirista Vitor Angelo. Foi colunista da seção GLS da Revista da Folha.


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