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A contribuição dos gays, lésbicas e travestis para o mundo

 

Europa Antiga: A força da resposta dos travestis e transexuais

Muitos adolescentes quando descobrem que ou gostam de se vestir de mulher ou se sentem como se o corpo não correspondesse ao gênero da carteira de identidade, em sua grande maioria, são expulsos de casa. Na rua, as possibilidades de trabalho são sempre mínimas e o preconceito contra os que ousaram passar as fronteiras do que é homem e do que é mulher acaba as empurrando para a borda da sociedade, em geral, se prostituindo.

O universo de humilhações que enfrentam faz com que não exista entre os gays e a longa lista que compõe a sigla LGBTTTs  (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros e o “s” que se refere aos simpatizantes) ninguém com mais orgulho e coragem de enfrentamento do que as que se iniciam com a letra T, que por acaso também é a letra de tensão e tolerância, duas palavras que ficam muito próximas dessas guerreiras.

Estar à margem muito cedo é também rapidamente aprender a se defender e se fazer respeitar. É um universo muito particular e surpreendente que quando se revela, mostra uma força inédita. Não é à toa que Vanessão, de Ji-Paraná, Rondônia, virou um fenômeno no YouTube.

Reza a lenda que Vanessão foi assassinada. Mas para as que sobrevivem, muitas conseguem o sonho de emigrar para Europa. E lá faturam muito. A partir desse momento, a lógica do capitalismo triunfa. Com grana, em geral a família volta a se aproximar e elas começam a ajudar os familiares com o dinheiro que ganham.

Não existe melhor exemplo para todos os homossexuais da força do chamado “pink money”, da resposta da grana, da possível aprovação pelo dinheiro. Não podemos esquecer nunca que pagamos por nossa aceitação.

O grande diferencial é que com esse elemento material, as travestis e transexuais não deixam o lúdico de lado e transformam o lixo em luxo. É algo essencial na cultura gay, e também na cultura dos trans: a construção da ideia de elegância e "chiqueria". É no escapismo do que é luxuoso que a realidade parece menos dura e cruel. O glamour como forma lúdica é um importante item do manual de sobrevivência de muitos homossexuais, travestis, transexuais e transgêneros. E o resto, como diz Luisa Marilac: "Meu cu!"

Escrito por Vitor Angelo às 21h00

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Quem tem medo de Elizabeth Taylor?

Todo mundo fala de seus maravilhosos olhos violetas e qualquer humano com um pouco de senso estético não poderia passar incólume pelo olhar de Elizabeth Taylor, que faleceu nesta quarta-feira, 23, aos 79 anos. Acredito que existia um elemento vital para nos levar a essa fixação. A atriz não gostava de ficar com os cabelos compridos, os prefiria curtos e, no máximo, à altura do ombro. Além disso, o fixador - que sempre usou - paralisava tudo. O cabelo que tanto ginga com o andar de uma mulher, em seu caso, era a base de seu motor imóvel. Tudo isso para entronar aquilo que o bom e delicioso clichê costuma chamar de janela da alma. Para deixar livre seus olhos, sempre em constante movimento, seus cabelos viviam perpetuamente imóveis.

E assim, a ideia de motor imóvel – que muitos filósofos e teólogos usam para se referir a Deus – foi o que movimentou sua vida e seus ideais.

À favor da tradição – a imobilidade de valores -, se casou de “papel passado”. Mas foram oito vezes, um número um pouco além do permitido por essa mesma herança cultural.

Contra a tradição, foi amiga e se apaixonou por inúmeros gays, entre eles o belo e problemático Montgomery Clift, lutou contra a discriminação dos portadores do vírus HIV em plena década de 1980 e apoiou incondicionalmente Michael Jackson quando todos o acusavam de estar embraquecendo sua pele e de ser pedófilo. A atriz, que veio de uma família muito religiosa, tentou propor movimento e novas ideias ao mundo usando umas das premissas imutáveis do cristianismo: “Amar ao próximo como a si mesmo”.

No cinema, era a morena entre as loiras. Belíssima, foi quando engordou e apareceu envelhecida no hoje clássico “Quem tem medo de Virginia Wolf?” (direção de Mike Nichols, 1966) que a atriz acabou levando um merecido Oscar. Fugir e reafirmar os padrões para acentuar o jogo entre tradição e modernidade, imobilidade e movimento.

Essa rica dicotomia da sedutora mulher que não era loira, mas tinha os diamantes como seus melhores amigos, continua fazendo inúmeras incompreensões. Uma delas acontecerá no dia de seu funeral, sem data ainda prevista. A Igreja Batista Westboro promete um protesto em seu enterro porque a atriz defendia o direito dos gays e dos portadores do vírus HIV. Isto é, mesmo morta, miss Taylor continua movimentando o mundo ao seu redor.

Escrito por Vitor Angelo às 20h34

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A servidão voluntária de muitos gays

Fala-se tanto em “pink money”, o dinheiro dos gays, que nessa etapa do capitalismo é moeda forte no jogo da aceitação dos homossexuais, mas no Brasil, esse câmbio anda bem em baixa.

Depois de tantas paradas, manifestações e beijaços, locais que são freqüentados majoritariamente pelas bees continuam sendo lugares que a homofobia fala mais alto.

Pra quem não conhece, a padaria Bella Paulista, em São Paulo, fica em uma área "ultra mona". O próprio estabelecimento vive habitado por diversas tribos homossexuais.

No dia 17 de março, enquanto um casal gay se acariciava, um cliente incomodado começou a berrar e a socar as mesas dizendo que eles deveriam fazer isso longe dali. O que mais espantou os dois protagonistas da cena não foi nem a indiferença do estabelecimento, nem a ignorância do sujeito, mas sim o silêncio devastador e os risinhos discretos da maioria dos gays presentes, como se aquilo tudo não lhes dissessem respeito.

Não tenho dúvidas que os grandes algozes dos gays são os próprios homossexuais. Lembrando dessa situação, me veio à cabeça um grande clássico do pensamento chamado “Discurso da Servidão Voluntária” do filósofo francês Etienne de la Boétie (1530 -1563):

“É verdadeiro dizer que no início serve-se contra a vontade e à força; mais tarde, acostuma-se, e os que vêm depois, nunca tendo conhecido a liberdade, nem mesmo sabendo o que é, servem sem pesar e fazem voluntariamente o que seus pais só haviam feito por imposição. Assim, os homens que nascem sob o jugo, alimentados e criados na servidão, sem olhar mais longe, contentam-se em viver como nasceram; e como não pensam ter outros direitos nem outros bens além dos que encontraram em sua entrada na vida, consideram como sua condição natural a própria condição de seu nascimento [...] Entretanto, o hábito, que todas as coisas exercem um império tão grande sobre todas as nossas ações, tem principalmente o poder de ensinar-nos a servir: é ele que, a longo prazo (como nos contam de Mitridates, que acabou habituando-se ao veneno), consegue fazer-nos engolir, sem repugnância, a amarga peçonha da servidão”

O silêncio e o risinho canhestro dessas bichas na padaria não eram nada mais nada menos que sinais de servidão.

Escrito por Vitor Angelo às 20h12

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Blogay Blogay é editado pelo jornalista e roteirista Vitor Angelo. Foi colunista da seção GLS da Revista da Folha.


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