Blogay

A contribuição dos gays, lésbicas e travestis para o mundo

 

Três imagens dos homossexuais: nos filmes “Contracorrente”, “As Melhores Coisas do Mundo” e no reality show “Chegadas e Partidas”

Pescador e pintor: amantes em "Contracorrente" (Foto: Divulgação)

O filme peruano “Contracorrente” de Javier Fuentes-León estreou nesta sexta-feira, 08, nos cinemas brasileiros e traz uma questão central: como a vida homossexual pode lidar com a tradição ou o que não se pode mudar, o que deve ser mantido.

Pensando em tradição como algo paternalista, monogâmica e heterossexual, ser gay é estar fora desses valores. Um pescador casado, com mulher grávida, é apaixonado por um pintor/fotógrafo. Não à toa, ele é um estranho à comunidade, está ali para uma temporada, não pertence nem compartilha os valores daquela vila de pescadores. Apesar disso, ele tenta mostrar respeito, na morte de um parente do seu pescador amante, ele faz questão de oferecer bebida para um grupo do vilarejo que notoriamente o rejeita por ele ser o que é, alguém fora da tradição. Pelas redes da narração, percebemos que os mais jovens – isto é, aqueles que trazem o novo ou que podem se opor à tradição - são os que apoiarão uma conduta mais humana, mesmo que isso contradiga uma certa crença percebida como ancestral - pois assim sempre foi e assim sempre será.

O que existe de mais fantástico no filme é que ele não rejeita a tradição como algo nefasto e que deva ser combatido para que os homossexuais sejam aceitos– não a trata como um preconceito às avessas. Ele encontra no mundo mítico dentro dos costumes e crenças daquela vila, um espaço para que o amor entre aqueles dois homens consiga uma certa dignidade.

Cartaz do filme (Foto: Divulgação)

Agora estamos no terreno da modernidade. O filme “As Melhores Coisas do Mundo” de 2010 e dirigido por Laís Bodanzky – que está sendo exibido nos canais por assinatura desde a semana passada - joga luz nos adolescentes de classe média urbana. Tanto a questão jovem como a urbanidade é da chave do que exige mudanças constantes, não existe espaço para a tradição, tudo está em constante movimento. Dois irmãos ficam sabendo que seu pai não apenas se separa de sua mãe como vai morar com outro homem. Se desfaz a tradição da família.

O mais jovem, Mano, interpretado por Francisco Miguez, e seus amigos fazem um desenho caricato de uma colega de classe lésbica. Logo depois, ele é a vítima de bullying quando descobrem que seu pai é homossexual. Por ironia do destino, quem lhe estende a mão é a garota gay que ele antes tinha tentado humilhar. Como disse, estamos no terreno da modernidade, do movimento e se um dia um personagem é o algoz, em outro ele pode ser a vítima.

Como tudo está em constante mudança, uma outra família vai se formatando e é o namorado do pai que vai ser a peça chave para que uma tragédia não aconteça. Ao final, percebemos que pai e amante estão mais integrados, dentro desse contexto de uma nova família que surge.

O amor em "Chegadas e Partidas" (Foto: Divulgação)

Por fim, entramos o terreno da transcendência. Astrid Fontenelle apresenta um reality show chamado “Chegadas e Partidas” que se passa em um aeroporto. Em um dos episódios, ela conversa com um casal de meninas que irão se separar durante um tempo. A conversa é sobre a paixão entre elas, os projetos, as esperanças. Não existe o conflito da sexualidade, apenas o conflito de existir, de algo que é comum a todos os seres humanos. Não existe nada de condenatório, porque ali estamos no campo absoluto da razão de duas mulheres estarem juntas: o amor. E nesse sentido, o amor transcende qualquer relação, seja homo ou heterossexual.

Escrito por Vitor Angelo às 22h30

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O Jogo de Michael

Michael é central do Vôlei Futuro, na cidade de Araçatuba.
Michael jogou as cartas na mesa: “Eu sou gay, mas isso não importa”.
Michael tem razão, no caso, o que importa é se ele é ou não é bom jogador.
Michael tem orgulho de sua sexualidade a ponto de não torná-la central na sua vida.
Michael sabe que é diferente, não porque é gay, mas por não colocar sua sexualidade no centro de suas questões.
Michael sabe que é espantosa a sua postura, a de assumir do que gosta em um mundo sempre na retranca como é o mundo dos esportes, já me avisou Xico Sá.
Michael sabe que também é inédito não superdimensionar sua orientação sexual, nem se vitimizar por isso: “Eu sou gay, mas isso não importa”.
Michael só quer trazer alegria para o seu time, para o esporte, a beleza do jogo. Mas recebe aquilo que ainda é ofensa.
Michael só escuta a torcida adversária inteira, um ginásio a gritar que ele é bicha. Bicha ainda é ofensa, talvez nós podemos transformar essa lógica.
Michael, da próxima vez que te chamarem de bicha, agradeça, diga: “Obrigado” de cabeça erguida. Não há ofensa nenhuma em ser gay. Cabe a nós fazer um bloqueio no peso dessa palavra como ofensa e levantá-la, em uma grande jornada nas estrelas, como um chamamento de orgulho.

Então a sacada é essa:
Michael, você é bicha – assim como eu - e isso é grande elogio.

Michael - Folhapress    

Escrito por Vitor Angelo às 21h11

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Camilo Rocha fala sobre música e preconceito

Camilo Rocha é um dos grandes críticos de cultura pop do país. Sua paixão por música e, em especial, pelo som dançante e eletrônico, fez com que encarasse uma batalha no final dos anos 1980, à favor de que mídia e público percebessem a seriedade desses estilos musicais considerados repetitivos e superficiais. Hétero, não teve medo de, em muitos debates, defender uma música que era considerada - na época - "coisa de viado". Para o Blogay, ele relembra desses tempos e comenta se existe ou não uma música gay.

Escutem o que o Camilo tem a dizer

Blogay - Gostaria que você contasse um pouco como era a cena musical pop no país na passagem dos anos 80 para os 90?

Camilo Rocha - Bom, a nova música eletrônica, que todo mundo chamava de dance music então, representada pelos gêneros derivados da house e do techno, era o novo underground, mas também tinha hits que chegavam alto nas paradas de sucesso. Era o caso de Technotronic, Deee-Lite, Black Box, Snap e C&C Music Factory. Artistas consagrados como George Michael, Boy George, Pet Shop Boys e Fernanda Abreu estavam incorporando essa dance music ao seu som, na época.
A dance music era tão forte na Inglaterra que influenciou muito o rock, no caso, bandas como Stone Roses, Happy Mondays e Primal Scream.
Em 1990, houve um mega-show no Ginásio do Ibirapuera, com Snap!, Inner City e Mr. Lee. Absolutamente lotado. E Happy Mondays e Deee-Lite tocaram no Rock In Rio, em 91.
No Brasil, porém, havia um fortíssimo preconceito contra essa nova tendência, tanto entre a crítica musical como das gerações mais antigas de artistas. Na melhor das hipóteses, desdenhavam a música como "comercial", "descartável", feita por quem não sabe tocar "de verdade". Na pior, era visto como música "de viado".

Existia naquela época uma divisão que em geral colocava o rock como sendo uma música de héteros e a dance e a música eletrônica como música de homossexuais. Você é hétero e sempre gostou de dance music e música eletrônica. Como as pessoas reagiam em relação a essa sua preferência? Havia insinuações, provocações?

Nunca ninguém falou nada na minha cara, mas quando entrei na revista Bizz, por exemplo, que era um reduto do rock, sabia que alguns colegas meus não levavam esse universo a sério (por consequência, não deviam me levar a sério também haha). E aí tinha as cartas dos leitores. Eu fazia a coluna de dance music na revista e recebia, em igual medida, correspondências de amor e ódio. Nas cartas de ódio, claro, tinha muita babaquice preconceituosa.

Exatamente nesse período – a passagem dos 80 para os anos 1990 - era quase um senso comum entre os diletantes de música eletrônica ir a alguma boate gay - independente de sua orientação sexual - pois ali poderia se escutar o que seria tendência depois na dance music. Isso realmente existia? Por que hoje isso já não acontece mais? As boates gays  - na sua opinião - perderam esse cárater de vanguarda porque?

Existia sim, lembro que tinha uma casa chamada Malícia, que era gay GAY. O residente era o Marquinhos MS, tido como um dos melhores DJs que o Brasil já teve (ele faleceu em 93). Marquinhos era incrível, ele ensinou o Mau Mau a tocar, por exemplo. Muita gente hétero ia no Malícia só pra ver ele tocar. Várias casas que estavam na vanguarda do som, como Madame Satã, Nation e Sra. Krawitz, tinham uma  freqüência gay forte. Hoje em dia, isso é muito mais raro. Alguns lugares com uma boa frequência gay, como as sextas do D-Edge, o Gloria, algumas noites do Vegas e Lions, acho que ainda são boas opções para ouvir coisas novas e interessantes. Mas são exceções. A noite gay, no geral, parece que viciou num formato de música bate-cabelo, go-go boy e balada onde a pegação é o único objetivo, nada contra a pegação mas a música ficou em segundo plano.

Por que no começo dos anos 90, você resolveu assumir a bandeira da música eletrônica, entrando em diversos debates que acusavam a música para dançar de gay, repetitiva e sem emoção? O que você lembra dessa época?

Por um motivo simples: eu amo esse tipo de música. Eu me identifico e gosto de música eletrônica desde o meio dos anos 80, com New Order e Depeche Mode. Eu venho de um background familiar muito sem preconceito, então eu sempre gostei das coisas pelo que elas são, não tinha esse dilema na cabeça se eu deveria gostar ou não desse tipo de música porque era "gay" ou “whatever”.

Você acredita que a música eletrônica e a dance music trouxeram mais tolerância à cena musical de São Paulo e do país?

Acredito muito nisso, pois colocou para dançar lado a lado pessoas de diferentes preferências sexuais e amenizou desconfiança e ignorância. Conheci muito moleque hétero que nunca tinha chegado perto de um cara ou mulher gay, com o tempo, não só passou a aceitar, como fez amizade e até incorporou gírias. Não foi a novela que colocou palavras como "carão", "truque" e tantas outras na boca da molecada hétero em São Paulo, foi a música eletrônica.

Na sua opinião, existe uma música gay?

Sempre complicado falar em música gay, hétero, isso ou aquilo, pois o ato de ouvir, desfrutar e se identificar com uma música é muito subjetivo.
Mas se for pra definir, acho que tem duas situações onde poderíamos falar de música "gay":
Primeiro, música que encontra receptividade entre os gays e segundo música que expressa algum tipo de sensibilidade/experiência gay.
Muitas vezes são a mesma coisa, mas nem sempre.
Um exemplo de que não precisam ser a mesma coisa: nas discotecas do começo dos anos 70, muitas delas 100% gays, dançava-se muita soul music e funk, que não eram gêneros "gays". Da mesma maneira, hits como "Torch" e "Tainted Love", do Soft Cell, ou mesmo muitas músicas de Renato Russo, parte de uma perspectiva gay, mas são adoradas por milhões de héteros por toda parte.

Camilo Rocha é autor do blog Bate-Estaca e editor de música do Virgula

Escrito por Vitor Angelo às 14h11

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Blogay Blogay é editado pelo jornalista e roteirista Vitor Angelo. Foi colunista da seção GLS da Revista da Folha.


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