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A contribuição dos gays, lésbicas e travestis para o mundo

 

Do perigo quando um enunciado se camufla em opinião

Os defensores do deputado federal Jair Bolsonaro (PP) muito se orgulham por acreditarem que ele tem uma opinião, no caso, contra os gays muito firme e muito sólida. Erroneamente, também defenderam Rica Perrone que em um artigo polêmico tomou partido do ato de xingar nos estádios contra a decisão judicial que multou o Cruzeiro pelos gritos nada simpatizantes para o jogador do time rival, Michael, do Vôlei Futuro, assumidamente homossexual. Mas ele se confundiu e acabou com fama de homofóbico. Acredito que o blogueiro esportivo seja apenas um desinformado, caso diferente do "nobre" político.

Opinião, segundo os dicionários, significa “modo de pensar, de julgar; pensamento (ter uma opinião formada sobre o caso)”. Isto é, ter um pensamento próprio, ser a conclusão de um enunciado. Fazendo um recorte nos discursos tanto no de Bolsonaro como no de Perrone tivemos na verdade um enunciado apenas: “Todo pai nunca gostaria de ter um filho gay”.  Você pode falar isso se referindo ao fato de odiar gays e detestar ter um na sua família, mas também se pode enunciar isso e depois explicar que você não gostaria que seu filho sofresse em uma sociedade tão preconceituosa. São duas posições distintas ao enunciado. E por fim, você pode discordar da frase e não se importar sobre a sexualidade de seu filho e isso não ser um problema dentro da sua vivência e individualidade. Enfim, na frase de Bolsonaro e Perrone, temos um enunciado, muito diferente de opinião, já que essa é o resultado de um pensamento.

Outro erro, quando se diz “todo”, você universaliza a questão. Há pouco tempo, tivemos a resposta maravilhosa de Marcelo Tas para o próprio Bolsonaro dizendo que tinha orgulho de ser pai de uma lésbica. Pode-se conjeturar o caso do apresentador como exceção, mas seria exceção também todas as associações de pais de homossexuais espalhadas pelo mundo que apoiam os filhos como também lutam contra o preconceito aos gays?

O perigo do enunciado se camuflar em opinião é o mesmo que fez a Alemanha da década de 30 condenar os judeus. “A culpa do nosso fracasso (alemão na Primeira Guerra) é dos judeus”. O enunciado virou opinião/pensamento e logo verdade e por fim campos de concentração e um extermínio dos mais horrorosos da história contemporânea.

Por isso é mais que urgente ressaltar que Bolsonaro não está opinando e sim enunciando, enunciando um futuro nada feliz e tolerante para os homossexuais.

Escrito por Vitor Angelo às 22h09

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Blogay Blogay é editado pelo jornalista e roteirista Vitor Angelo. Foi colunista da seção GLS da Revista da Folha.


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