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A contribuição dos gays, lésbicas e travestis para o mundo

 

Carta para um amigo nordestino diferenciado

Caro Xico Sá,

Diego Padgurschi / Folhapress

As coisas andam muito confusas em São Paulo. Eu sei, elas nunca foram fáceis para os nordestinos nem para os que sonham com uma cidadania decente nesta metrópole. Se uma presidente/presidenta do Brasil é eleita contrariando os desejos de uma grande parte dos paulistanos, a culpa é de quem? A cidade é suja, culpa de quem? Com a sujeira, bueiros entopem e quando chove, a cidade inunda, a culpa é de quem? O trânsito é infernal, culpa de quem? A violência não para de crescer, culpa de quem?  É meu amigo, o nordestino é o novo judeu em São Paulo. Bom, nem sei se novo, porque esse preconceito é bem antigo.

Mas mudando um pouco de assunto, essa metrópole está um abandono. Para poder ir na casa de uma amiga no Pacaembu, eu que estava na Consolação, percebi que o meio mais rápido era... Um táxi. O motorista foi conversando comigo, foi bem claro ao assumir - pelo menos isso! - que odeia esse "pessoal do Norte" e que as ruas de São Paulo parecem atualmente uma estrada rural.

Fomos vendo o matagal alto, sem corte, muito lixo na rua e eu disse: “São Paulo está esquecida, mas os nordestinos nunca abandonaram essa cidade. Aliás, fizeram a memória desse lugar de Piratininga. Vieram, tiveram filhos, famílias, músicas e poesia e nunca nos deixaram. Nunca trataram essa cidade como o português colonizador que vinha, fazia seu lucro e voltava para sua terra. Eles ficam e eles fazem essa cidade uma pouco mais cosmopolita, a presença deles – em geral pobres economicamente, mas nem todos - é uma afronta aos muros cada vez mais altos dos condomínios fechados e ao elitismo cafona quatrocentão de alguns frustados (decadentes nunca, pois para isso precisariam ter passado pela civilização)".

O motorista quis continuar o assunto sobre os absurdos que vivemos na cidade de hoje e já foi metendo o pau nos moradores de Higienópolis: “Aqueles judeus desgraçados, onde já se viu, impedirem o metrô de chegar até o bairro deles”. Novamente, vendo lá perto do cemitério do Araçá lugares escuros, repliquei: “Os judeus nem os moradores de Higienópolis são os responsáveis por esse dessarranjo. Os governantes é que ainda têm uma mentalidade longe do conceito de cidadania. Para o pessoal de M´Boi Mirim que quer ampliar a avenida que dá acesso á região central, nada. Para uma associação de Higienópolis, tudo. A culpa não é dos endinheirados do bairro nobre, mas da falta de nobreza de nossos governantes”.

Nobreza essa que eu aprendi vendo um caboclo ponta de lança, nobreza essa que está nas mãos que construíram literalmente essa cidade, nobreza essa que li em seus textos sempre e na sua amizade, Xico. Parafraseando e modificando a frase: O nordestino não é um forte, é um nobre.

Conclusão, o problema é com os pobres e como os nordestinos na cidade - nem todos – são pobres, eles ganham uma carga dupla de burrice histórica por parte dos chamados paulistanos. Quero deixar claro que nasci nessa cidade. E, Xico, como paulistano que gosta de receber as pessoas de fora em casa, quero te convidar para no sábado, 14, às 14 horas irmos lá em Higienópolis, que é a minha casa também, como é a sua, e fazermos um churrascão. Vai ter algo na Vilaboim e em frente ao Shopping Higienópolis. Depois, vamos comer baião de dois lá no largo de Pinheiros, que tem metrô.

Escrito por Vitor Angelo às 23h10

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Fotógrafo recupera em livro o tempo perdido de um dos clubes mais loucos dos anos 1990/2000

Para muita gente sair à noite durante a semana é coisa de vagabundo. Mas no final dos anos 1990 e no começo dos 2000, surgiu um clube em São Paulo que a anarquia e a diversão eram garantidas, mas num dia no meio da semana. Chamava-se "Torre do Dr. Zero", depois mudou para a casa ao lado com o nome de "Rabo de Saia" até retornar para o lugar de origem. O lugar nem era tão especial e sim o dia que se devia estar lá, a quinta-feira, em uma noite criada pelo DJ Alexandre Bispo e o artista plástico Adriano Costa. Por isso, “Quinta na Torre” inspirou estampa de camisa da grife Amonstro, música de Adriano Cintra - integrante do Cansei de Ser Sexy - e uma obra monumental do artista plástico e grafiteiro Carlos Dias. Muita gente passou por lá, muitos adoravam, era um lugar que identidade sexual e gênero pouco importavam. Claro que tinha pessoas que execravam, "lugar de gente suja, sem nada pra fazer”.  Porém, as memórias dos anos loucos na Mourato Coelho foram registrados pelo fotógrafo Paulo Batalha e agora a Editora Dona Joana lança o livro "B.O." com fotos da Torre, no dia 17 de maio, na Livraria da Vila, em Pinheiros, e mostram que esses adoráveis vagabundos muito fizeram para uma cidade menos cinza, triste e violenta.

Jota era o cara que nos recebia todas as quintas-feiras. Foto: Paulo Batalha

Blogay conversou com Paulo Batalha. Abaixo a entrevista

Blogay: Como surgiu a ideia do livro?

Paulo Batalha: Tudo começou a partir das saídas fotográficas que faço com o Coletivo Rolê de fotografia [grupo de fotógrafos que saem para fotografar a cidade à noite]. Sempre saímos à noite para fotografar e, quando saíamos numa quinta, acabávamos indo até a Torre. Como eu já estava com equipamento e adrenalina a postos, fazia uns retratos por lá. Com o tempo, fui vendo que tinha algo de interessante nas fotos e comecei a ir à Torre com frequência, sempre com a câmera. Passei quatro anos fotografando lá e vi que tinha material suficiente para um livro, e que esse livro poderia ser um retrato de uma geração com a cara de São Paulo, bem urbana.

Como foi o processo de selecionar a achar as pessoas para pedir autorização para uso de imagem, aconteceu algum fato curioso?

Selecionar as imagens foi um processo trabalhoso. Eu tinha mais de 4 mil fotos, entre cromos, negativos coloridos, negativos PBs e fotos digitais. Pensar na edição, criar uma linha que tenha um sentido estético, foi desafiador. Mas nem tanto quanto pegar as autorizações de uso de imagem. No começo, não conhecia muita gente. Conforme eu ia encontrando as pessoas do livro, elas mesmas me ajudavam a reconhecer as outras. E foram quase 170 autorizações. O público da Torre era muito heterogêneo. Fui conversar com personagens do livro nos lugares mais diversos, desde escritório nos Jardins e festa lotada de jovens no Bixiga, até loja de fantasias na avenida Robert Kennedy, em Interlagos. Acho que o fato mais curioso foi encontrar as pessoas fora do ambiente da Torre e conhecê-las melhor, ver suas reações ao folhear o livro. Algumas se emocionaram de verdade, e ficou nítida a saudade que todos sentimos da Torre.

O artista plástico Ricky Castro abravanou muito na Torre. Foto: Paulo Batalha

O que era a Torre para você?

Pra mim, a Torre era um espaço de conforto em meio ao caos paulistano. Uma casa underground e acolhedora ao mesmo tempo, com música muito boa para quem quisesse dançar ou conversar. Sinto saudade daquele ambiente democrático, divertido.

Qual foi a importância da Torre para a cidade?

A Torre representava uma válvula de escape para quem queria se divertir sem se importar com nada. Era um espaço que agregava gente de todo tipo, sem preconceitos. Era fácil fazer amizades, conhecer pessoas.

O estilista Dudu Bertholini também abravanou por lá Foto: Paulo Batalha

Você é hetero. O que achava dos gays que frequentavam a Torre? Você ficou mais tolerante, fez amigos homossexuais?

Achava ótimo, porque era bem misturado e sempre me dei muito bem com todo mundo. Fiz amizades na Torre que não faria em nenhum outro lugar. E isso é muito importante. Vivemos numa cidade tão grande, que tanto se auto-proclama cosmopolita, mas que em pleno século 21 é tão cheia de preconceitos. A Torre era um exemplo de convivência com a diferença. Pena que fechou, faz falta.

Foto: Paulo Batalha

As fotos foram cedidas pelo fotógrafo Paulo batalha para divulgação.

Escrito por Vitor Angelo às 13h50

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Espero que Lacraia, ícone do funk carioca, não descanse em paz

Rogerio Cassimiro / Folhapress

Lacraia era magérrima, elástica, elegante à sua maneira. Eu a conheci, nos encontramos poucas vezes, mas sempre foi algo muito animado como sua dança, por isso foi com tristeza que recebi a notícia que a dançarina morreu na manhã desta terça-feira (10). A primeira vez que a vi foi no Tim Festival de 2003, no Rio de Janeiro, ela era convidada do DJ Marlboro, junto com o MC Serginho - os dois faziam uma dupla que tem seu lugar garantido na história do funk carioca.

Lembro de uma certa “modernidade apaulistanada” comentar: "Na hora que entrar o funk, a gente se joga em um chill out em outro lugar”. O funk ainda era considerado música de marginal, bandido e pobre.

Apesar de muita gente ir embora na hora do funk, tenho claro na minha mente a presença de Fernanda Mena, editora da Ilustrada da Folha de São Paulo e Claudia Assef, autora do livro "Todo DJ Já Sambou" entendendo tudo. Não tinha nada de pobre nem de bandido naquele momento e caímos até o chão com o dia nascendo feliz. Quem venceu o preconceito - ou não o tinha -, viu a fascinante união naquele momento de mauricinhos, modernos, seguranças e o pessoal da limpeza todos dançando juntos como uma grande celebração. Saí fascinado com o pancadão.

Uma semana depois estava de volta ao Rio para fazer uma ronda em um fim de semana pelos bailes funks com Marlboro. Foram dois dias de visita em inúmeros bailes sendo um dia acompanhado também por Afrika Bambaataa que assim como eu também estava sendo iniciado no groove pesado da legítima música eletrônica brasileira.

Até que no domingo, mais exatamente por volta das 3 horas da manhã, isto é, madrugada de segunda, tinha milhares de pessoas esperando, em Belford Roxo, a entrada de Serginho e Lacraia. Meu queixo prepotente de paulistano, que jura viver em uma cidade que tem uma das melhores noites do mundo, literalmente caiu. Era uma multidão festiva.

Enfim, chega um dos pontos altos da apresentação, o concurso de quem beija melhor a Lacraia. Jovens totalmente desprovidos de preconceito subiam e tacavam beijos cinematográficos na fofa. Devo confessar que invejei. Como estava no palco e eles são realmente muito calorosos, Lacraia me puxou pra dançar com ela. Eu, que nunca fui de palco, fiquei tímido, mas ela sussurrou carinhosamente, segue meu ritmo e vamos nos divertir.

Lembro que escrevi na época diante tanta originalidade – Serginho com aquela voz rasgada - que eles eram o punk rock do funk carioca. Hoje sei que eles eram – entre outros bondes e MCs - o que o funk poderia ter de mais legítimo, sem comparações.

Roberto Price / Folhapress

Voltei a encontrá-los para matéria em uma revista. Dessa vez, em seu próprio território. Fui ao Jacaré/Jacarezinho. Eles me mostraram o estúdio de rádio comunitário onde Serginho fazia programas de conscientização e prevenção contra a Aids. Ele conhecia Lacraia  desde muito tempo, mas fazia questão de chamá-la de Marquinhos. Lacraia (que tinha nome de batismo Marco Aurélio Silva da Rosa) não reclamava, o que poderia parecer ofensivo, ela entendia como sinal de carinho do amigo hétero.

Eles viviam em casas simples, nada de luxo ostensivo assim como o estilo de Lacraia. Ela sempre usava uma saia plissada curtíssima, mas as pernas cobertas por uma legging – muito antes delas serem fashion - e tinha o cabelo descolorido à la Funk N’ Lata que era moda entre as comunidades carentes do Rio, mas nela ganhava um outro charme. Como tinha outra vibe essa união e respeito de amigos -  Lacraia e Serginho - com orientações sexuais distintas. E mesmo Serginho e Lacraia estando afastados nos últimos tempos, o MC reconhece a amizade e o papel da dançarina no projeto dos dois. E novamente Lacraia foi queridíssima e o papo foi divertido, cheio de pajubás.

Um ano depois, ela era novamente uma das atrações junto com Marlboro agora do Sonar Sounds Nokia Trends em 2004. Dessa vez, a “modernidade apaulistanada” estava toda dominada e ninguém mais quis ir a nenhum chill out. Todos ficaram pra ver o funk, o Marlboro, os bondes, MC Serginho e Lacraia. Quando ela me viu pendurado na grade gritando seus hits, ela veio, e disse que amou a matéria - quase um ano depois -, que me adorou e para eu subir no palco. Eu neguei, ela desceu e me deu um beijo.

Encontrei ela mais umas vezes nas andanças minhas pelo funk, mas encerro aqui com esse beijo que ganhei daquela que ganhava beijos dos bofes, no dia que muitos preconceitos caíram para mim, para essa modernidade, para quem achava o funk intolerante e sexista.

Descanse em paz, uma ova, Lacraia, agite e rebole muito onde quer que você esteja, tenho certeza que é em um lugar bem divertido.

Escrito por Vitor Angelo às 18h25

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Blogay Blogay é editado pelo jornalista e roteirista Vitor Angelo. Foi colunista da seção GLS da Revista da Folha.


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