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A contribuição dos gays, lésbicas e travestis para o mundo

 

O caso Palocci: os gays como moeda de troca

Há 15 dias, saí do Brasil com a excelente notícia da aprovação das relações homoafetivas como direito consagrado pelo STF (Supremo Tribunal Federal). Também foi impactante saber que 500 mil pessoas, em 190 países, se juntaram pela internet para protestar contra o infame projeto de lei “Matem os Gays” em Uganda, e com tanta pressão internacional, o país africano acabou abandonando essa ideia. Era só felicidade.

Mas como diz aquele mantra da bossa nova: “tristeza não tem fim, felicidade sim” e a volta ao país foi desalentadora. Com o caso [Antonio] Palocci correndo solto e o Governo precisando apagar as chamas, os gays se transformaram em moeda de troca. O kit contra a homofobia nas escolas feito pelo MEC - que os mal intencionados adoram chamar de "kit gay" e juram que irão transformar as crianças em pederastas absolutos (fico imaginando que na ignorância e na calhordice desses homofóbicos, eles devem achar que no kit deva vir batom, perucas, dildos ao invés da dignidade de ser respeitado em todos os ambientes) - é um dos alvos para apaziguar os ânimos políticos. Pois tanto o kit como a PLC122 que criminaliza a homofobia podem estar com seus dias contados e sepultados. 

Para satisfazer uma boa parte da ala conservadora da base governista assim como para salvar a pele de um dos membros chaves do PT, vale qualquer mesquinharia. Que se danem os homossexuais, parece ecoar por todos os lados do Planalto Central, sendo que muitos gays apoiaram bravamente esse governo que está agora eleito, o que não foi meu caso.

Já escrevi aqui - para a alergia de muitos gays ligados ao PT  - que as ideias devem estar acima dos partidos, que vender seu ideal em nome de um partido é o primeiro passo para o fracasso e a frustração. O partido deve ser a máquina que pode guiar suas ideias. Enfim, deve estar a serviço de seu ideal e não ao contrário. Um trecho daquele longo texto dizia: “Ser apartidário quando a questão é a luta das minorias pois o partidarismo só nos cega. E, trabalhar com criticidade contra o pensamento patriarcal é fundamental, principalmente quando ele - o patriarcalismo - nos habita como se fosse algo natural”.

A tese se provou, estamos numa sinuca. Podemos perder certas conquistas como o kit e a homofobia continuar um ato impune.

Diante dessa situação, o escritor João Silvério Trevisan escreveu na internet: “Há anos ,eu venho batendo na tecla de que as políticas homossexuais precisam de governos aliados, não de patrões. Movimento social não pode ser subserviente às razões do governo, que no caso se confundem com as razões do partido. O que nós temos visto é um atrelamento, quando não cooptação. As farpas, naturalmente, sobram para nós, os mais fracos. Por causa da minha insistência, já fui xingado, mal tratado e desprezado pelo movimento homossexual alinhado quando não submisso às políticas partidárias. Bem vindos/as à hora da verdade! Bem vindos/as à realidade!”

Por isso a necessidade do apartidarismo, por isso o antídoto anti-decepção, por isso devemos seguir em frente, livres para criticarmos esquerda ou direita e não apenas um lado da moeda, pois essa história está muito além do cara ou coroa.

Dilma Roussef e Antonio Palocci  Foto:Lula Marques / Folhapress

Escrito por Vitor Angelo às 21h49

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Blogay Blogay é editado pelo jornalista e roteirista Vitor Angelo. Foi colunista da seção GLS da Revista da Folha.


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