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A contribuição dos gays, lésbicas e travestis para o mundo

 

Noite de fetiche em SP une gays, héteros e bissexuais

Heitor Werneck agita o comportamento dessa cidade de Piratininga faz muito tempo. Primeiro, ele era peça emblemática no Satã, um dos personagens que fez com que a imagem do clube como lugar de góticos, punks e new romantics (era como ele se intitulava na época) desse o tom de modernidade de São Paulo para o resto do país. Depois, foi criador da marca Escola dos Divinos, no exato momento que a moda entra na moda, nos anos 1990, mas que ainda era considerada alternativa – palavra desgastada mas que ainda é justa para referirmos aos talentosos estilistas como Marcelo Sommer, Alexandre Herchcovitch que dialogavam com o underground da cidade. O único detalhe é que Heitor era e é o underground. Agora, faz 6 anos que realiza a festa Luxúria que como explicou para o Blogay é voltada ao fetiche e não só ao sadomasoquismo. Ali gays, bissexuais e héteros convivem pacificamente, muito mais preocupados em realizar suas fantasias do que vigiar a dos outros, como um avesso do que acontece atualmente em nossa sociedade.

Blogay: Como surgiu a ideia da festa?

Heitor Werneck: Eu  faço a festa de fetiche Luxúria desde que voltei a São Paulo. Trabalhava no Limeligth [casa noturna] e tinha shows de S&M {sado-masoquismo] com  a Laura de Vison [famosa transformista carioca], depois com a Escola de Divinos [ marca de roupas] todo desfile ou apresentação tinha pitadas de S&M ou fetiches, como ja havia feito varias tentativas de festas, resolvi levar a sério a temática fetichista e investir nisto há seis anos atrás. ja havia criado Escola de Divnos e depois o pulgueiro precisava de um brinquedo novo.

Quem frequenta as festas Luxúria?

O frequentador do Luxúria é um misto de pessoas que  gostam do S&M e adotam o visual,  jovens estudantes de moda ou teatro, casais  fetichistas na idade de 30 a 45 anos, pessoas que gostam de moda e são incentivadas pelo dress code, gays e transsexuais , e está aumentando muito o número de crossdressers héteros.

Qual a proposta da noite?

O conceito da noite não é uma festa S&M em si, o Luxúria é uma festa fetichista ou seja ela abriga tambem S&M, mas nao é o foco. O verdadeiro foco da noite é fazer voltar o dress code e  incentivar o vestir na noite, a montação, como era no Massivo [famosa casa noturna de SP no início dos 1990], no Satã e no Rose Bom Bom [esses dois clubes foram responsáveis pela expansão do imaginário alternativo da noite de São Paulo para o resto do país]. O uso de jeans não é incentivado, o verdadeiro intuito da festa e resgatar ao glamour e a estética fetichista ajuda muito.

O que é o sadomasoquismo?

O sadomasoquismo é uma expressão usada de forma errônea mas no meio psiquiátrico identifica pessoas com esta filia. Uma pessoa ou é sadica, gosta de bater, de provocar, de dominar ou gosta de masoquismo, da dor e não nescessariamente submisssão. No Brasil, as pessoas acham que o fetiche faz parte do sad-masoquismo sendo que na verdade é o contrário. O sado e o masoquismo é um dos ramos do fetiche. Na festa existem vários podólatras (pessoas que gostam de pé tanto masculinos como femininos), tem também pessoas que gostam de shibari, um tipo de amarrações, pessoas submissas e dominadoras - algumas com relações estáveis. Sem falar dos crossdressers que se vestem de mulheres e são héteros, andróginos,  pessoas que usam latex e couro, todos estes fetiches são confundidos por sadomasoquismo e isto esta completamente errado: sao fetiches.

O público S&M é mais tolerante? Ele tem sofre preconceitos? Quais?

Não, o povo do S&M não é tolerante. Existe uma facção do S&M que exercita sua sexualidade escondida e eles mesmo se escondem por nomes, poucos assumem suas fantasias por se sentirem excluídos. Há um preconceito grande incutido na sociedade contra taras e que mostra bem a hipocrisia  da sociendade, afinal ela aceita  e incentiva o homem a se vestir no carnaval e nas festas juninas de mulher, mas apenas nessas datas.

Os gays tem espaço em sua festa, mas nunca ocorreu nada homofóbico por parte de algum desavisado?

Sim, os gays têm espaço aberto na festa e no meio de fetiche o bissexualismo é algo comum. O que acontece na festa é o contrario, os gays não se sentem bem com as mulheres tao liberais. Nunca ocorreu nada  homofóbico e tampouco briga na festa por nenhum tipo de situação nem de sexualidade tampouco de desarmonia. As pessoas não bebem até cair porque o que importa na festa é a sedução, se ela vir de homem, mulher ou dos dois e sempre benvinda. No segundo andar da festa, há ambientes para transar porque na parte de baixo o sexo não é permitido. Então por ter este ambente de fetiche e de sensualidade e ter a oportunidade de executar a sexualidade, acredito que não é um ambiente repressor e por isto nunca houve nada de homofóbico .Os desavisados são barrados na entrada.

A próxima edição da festa será do sábado, 11, a partir das 23h, no Constantine Club ( Av. das Carinás, 110 - Moema, São Paulo). O dresscode é Baile de Máscaras.

Escrito por Vitor Angelo às 16h53

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Marcha contra Belo Monte e outras passeatas ou a classe média vai ao paraíso

“As passeatas são o novo barzinho”, disse-me uma amiga em uma festa nesses dias. Para além do humor e de um certo tom pejorativo da comparação, existe dentro das inúmeras marchas e protestos que têm ocorrido nas grandes cidades brasileiras, principalmente em São Paulo, uma movimentação clara de uma parcela da classe média urbana que resolveu mostrar a sua cara de uma outra forma.

Se existe um fenômeno “novo” acontecendo é que as questões das chamadas minorias vêm ganhando apoio explícito dessa classe sempre censurada pelos esquerdistas – que em geral pertencem silenciosamente à classe média –, mas adoram condená-la como um bloco reacionário. Em primeiro lugar, ela não é um bloco, é sim um exemplo de fragmentação. E na fragmentação podemos encontrar a individualidade. E na individualidade, grosso modo, o conceito de minoria pode ser ressaltado e admitido.

Não é à toa que a Marcha das Vadias (excelente nome, a Parada Gay bem que poderia mudar para Marcha das Viadas), que aconteceu no sábado, 4, veio de encontro aos anseios feministas mas teve uma presença importante de homens que são contra o sexismo, assim como via-se casais gays de mãos dadas durante a Marcha contra Belo Monte, neste domingo, 5, e em dado momento o grito de guerra foi exatamente esse: "Maconha é legal, Belo Monte é que faz mal" em referência à Marcha da Maconha reprimida duramente pela polícia.

Por serem eventos empreendidos pela classe média via rede sociais e não por partidos políticos, eles também acabam mais críticos e independentes, em certo sentido. Tanto que o Governo Dilma, eleito por uma militância forte, que costuma sair em passeatas e muitas vezes são bastante sectária, recebeu suas primeiras críticas nas ruas, por aquilo que os esquerdistas "amam" chamar de “povo”. Gritos como: "Governo oportunista, se vendeu pra bancada ruralista" ou "Governo Dilma, eu já sabia, seu socialismo é pra burguesia”, mostravam a clara insatisfação com nossos atuais governantes e que não aceitariam tão fácil a aprovação do Código Florestal nem a construção da usina de Belo Monte como moeda de troca para salvar o ministro da Casa Civil, Antonio Palocci, assim como pode acontecer com o kit anti-homofobia nas escolas do MEC e a PLC 122 que criminaliza a homofobia.

Imitando índios, os manifestantes pararam em frente à sede do PCdoB, na rua Rêgo Freitas, no centro de São Paulo, e vaiaram simbolicamente o deputado Aldo Rebelo, autor do controverso Código Florestal. Um partido de esquerda com histórica imagem de militância e passeatas sofreu um paradoxo que só a liberdade de pensamento pode proporcionar. Vaia para os dogmáticos e aplausos para essa classe média mais crítica.

Um grito me tocou em especial durante essa marcha: "Ê governo burro, prefiro ficar no escuro". Mal sabem, que talvez falte luz para as mentes deste Governo e pensei que a próxima Parada Gay, que acontece agora no dia 26 de junho, poderia ser realmente política, porque confunde-se muito politização com ideologização partidária e esse erro não podemos cometer diante tantos exemplos positivos. Belo Monte foi só o começo.

Escrito por Vitor Angelo às 22h24

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Blogay Blogay é editado pelo jornalista e roteirista Vitor Angelo. Foi colunista da seção GLS da Revista da Folha.


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