O que está acontecendo com a lei contra a homofobia?

Há algumas semanas, a militância ficou sabendo que o esforço para a aprovação da PLC 122/2006 tinha sofrido algumas mudanças. Temerosa que a lei não fosse aprovada, a atual relatora Marta Suplicy costurou um acordo com os senadores Demóstenes Torres (DEM-GO) e Marcelo Crivella (PRB-RJ) – famoso pela sua oposição ferrenha ao projeto que apelidou maliciosamente de "lei da mordaça". Além deles, o presidente da ABLGBT (Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais), Toni Reis, também foi chamado e houve propostas de alterações de alguns pontos da lei.
As alterações principais e a comparação podem ser vistas e comparadas nesse documento. Além da diminuição de penas e prisões preventivas previstas em diversos casos no projeto anterior, existe uma sensação que a lei é mais decorativa do que efetiva de fato para a vasta gama dos chamados coloridos.
Para alguns juristas e militantes, a mudança da PLC não cria o chamado crime de homofobia. A única novidade é que criminaliza com penas um pouco maiores quem incita a violência contra os homossexuais, transexuais, travestis e bisexuais, mas não encara como crime a incitação ao preconceito e a discriminação. Em suma, a raiz da homofobia que parte do discurso continua impune.
Também critica-se a retirada da homofobia e a transfobia como crime de racismo. Para o criminalista Guilherme de Souza Nucci, “racismo é toda ideologia que pregue a superioridade/inferioridade de um grupo relativamente a outro”. Assim, acaba-se por colocar - em um situação surreal - os homossexuais como inferiores a outras minorias discriminadas também.
Como na democracia passa-se por um debate para se chegar a um consenso, muitos grupos organizados tanto de religiosos como dos direitos humanos e homossexuais estão se mobilizando para poder ter voz dentro desse projeto. A própria Marta Suplicy declarou que o debate ainda estava aberto.
Uma petição pública formada por grupos gays pedindo uma nova revisão na atual PLC 122 está sendo divulgada na internet e está sendo organizado uma plenária do Movimento LGBT de São Paulo em defesa do PLC 122 /2006 no dia 28 de julho, quinta-feira, às 19h no Auditório da Apeoesp (Praça da República, 282, São Paulo).
Pelo jeito a discussão ainda promete, um bom sinal em tempos democráticos.
Escrito por Vitor Angelo às 20h44
Emissoras tirarão do ar o afeto e a cidadania dos gays ou como transformar os homossexuais em peças decorativas de uma trama
Interessante e poético o editor de entretenimento da Folha, Ricardo Feltrin, chamar as recentes histórias de casais homossexuais nas telenovelas brasileiras como “a primavera gay”. O termo primavera em história é usado para descrever levantes contra velhas ideias, ditaduras ou sistemas de pensamento. Foi assim com a chamada Primavera dos Povos, de 1848, a Primavera de Praga, de 1968 e a recente Primavera Árabe. Todas trouxeram novos ares e algumas como a de Praga e dos Povos fracassaram aparentemente, pois o aparelho repressor se organizou de forma eficaz, mas as ideias que elas traziam não morreram, elas resurgiram com força total em um momento posterior.
Com a decisão do SBT e principalmente da Globo – essa uma fundamental produtora de imagens – de reduzir a discussão sobre homofobia assim como cortar cenas de romance entre casais gays, eles cometem uma brutalidade mais sutil, mas não menos destrutiva que os tanques soviéticos pelas ruas de Praga. Eles negam o direito de imagem e de reconhecimento de sua própria imagem por uma parcela da população brasileira que tem poucas referências, quando nenhuma, – comparados aos héteros - tanto de afetividade como de cidadania.
Enfim, lésbicas, gays, bissexuais e travestis irão se transformar em peças decorativas das tramas, como que para dar um ar de contemporaneidade às novelas, já que enfiá-los de volta para o armário é um movimento impossível, mesmo para os neonazistas.
Um trecho da nota da Globo diz: "A ciência - incluindo Freud - reconhece que a sexualidade, com suas variantes éticas e morais, é baseada na singularidade. Nossas tramas registram a afetividade e o preconceito, mas não cabe exaltação".
Se exaltação é um beijo entre dois homens ou duas mulheres se olharem profundamente, ou mesmo a reprodução ficcional da violência real sofrida por travestis ou feita por homofóbicos, realmente,a emissora conseguiu descaracterizar e tirar do ar o verdadeiro significado de exaltação. Realmente a Globo e eu não temos nada a ver.
Enquanto isso...

Lula Marques / Folhapress
Escrito por Vitor Angelo às 11h57
Quando héteros são vítimas da homofobia: o caso São João da Boa Vista
Desde a noite de segunda-feira, 18, o caso de pai e filho espancados por serem confundidos com gays tem deixado até muita gente que diz ser contra os homossexuais chocada. Outro exemplo recente é narrado pela travesti e web celebridade Luisa Marilac que conta que sua mãe, uma mulher idosa, apanhou junto com ela porque a confundiram com uma trava. Isto é, heterossexuais foram vítimas de homofobia porque diferente das mulheres e dos negros, ser gay nem sempre é tão palpável e visível. Nesse sentido, nem sempre se reconhece o gay à primeira vista - para horror dos preconceituosos - e mesmo confiando em códigos formados pelo senso comum, um gay pode ter ou não a combinação de atitudes que caracterizam um homossexual. Então, muitas vezes acontece confusões e equívocos como acreditar que um hétero é gay e vice-versa.
É triste dizer, mas esses casos não são algo isolado e são reflexo sim dos que não gostam dos gays, dos que pregam a anormalidade das pessoas que amam pessoas do mesmo sexo e ainda, como Leonardo Sakamoto bem escreveu, culpa da bancada evangélica e conservadora do Congresso Nacional que se recusa a aprovar uma lei contra a homofobia ampla e (para não caírem na contradição de pertencerem – para a opinião pública - a uma religião que prega o ódio) se aliaram a Marta Suplicy nesse momento e amenizaram – para não dizer descaracterizaram – o projeto de lei PLC 122/2006 que criminaliza atos como esse que ocorreu com pai e filho na pequena cidade de São João da Boa Vista. Mas isso é assunto para outro post.
Os abraços entre amigos, a fraternidade entre colegas, o carinho de um pai ao seu filho, na grande maioria das vezes está muito distante de qualquer conotação sexual. É o que chamamos de amor fraternal. E era isso que acontecia quando um grupo de jovens perguntou se pai e filho eram gays por estarem abraçados. Mesmo com a resposta sendo negativa, eles desceram porrada e deceparam parte da orelha do homem de 42 anos.
Esse ato covarde mostra o fundo da homofobia. Não importa se o gesto de carinho é fraternal ou sexual, a demonstração de afeto entre homens deve ser banida, expurgada. O amor, seja ele de amigo ou de amante, está vetado para os homofóbicos. O abraço, o beijo ou mesmo o carinho é proibido para essa gente que só sabe odiar. Cada dia mais entendo a relutância dos que odeiam os gays em assumir sua homofobia. Deve ser muito triste ser homofóbico, se assumir como tal e viver num mundo que seu pai ou seu amigo não podem te dar um beijo ou um abraço seja de boa-noite seja de boas-vindas. Deve ser triste viver camuflando que o ódio aos gays é desculpa para a própria falta de amor.
Escrito por Vitor Angelo às 13h43
Shopping e drag divulgam nota esclarecendo o caso de discriminação
Antes de divulgar as notas de esclarecimento tanto da drag Cindy Butterfy assim como do Shopping Frei Caneca sobre o caso de discriminação, gostaria que os leitores refletissem um pouco do porque se tem o hábito de transformar as vítimas em culpadas. É assim com a mulher estuprada - "aconteceu porque quis, permitiu". É assim com o gay que apanha na rua - "com certeza flertou o machão". É assim com o negro preso sem provas - "a polícia o prendeu porque deu mole, se comportou de maneira estranha". É assim com quem ousa se vestir da maneira que bem entende - "essa roupa não era apropriada para o local e por isso recebeu assédio". É assim se você é minoria nesse país.
Isso eu escrevo não para o shopping nem para a drag Cindy, mas para muitos dos comentários que fizeram nesse blog sobre o caso, caindo em uma estranha esfera moral cheia de amoralidades.
Abaixo, o Blogay publica as notas de esclarecimento:
Shopping Frei Caneca -
O Shopping Frei Caneca esclarece que a abordagem feita a Sra. Cindy Butterfly, no último dia 16 de julho, se refere exclusivamente à filmagem do empreendimento durante cobertura jornalística de um evento de moda. O Frei Caneca reforça ainda que, em respeito à imagem de seus frequentadores, é necessário um pedido prévio de autorização para filmagens nos corredores do mall.
A iniciativa se aplica a todos os públicos, inclusive aos órgãos de imprensa. É importante ressaltar que a Sra. Cindy Butterfly desenvolveu o seu trabalho normalmente no local do evento, ocorrido dentro do Centro de Convenções Frei Caneca. A filmagem foi autorizada pela organização do Fashion Week Plus Size. Desde o início de sua operação, o shopping posiciona-se como um empreendimento voltado à comunidade em geral, sem qualquer tipo de orientação sexual ou discriminação (social, racial, religiosa, política). O Frei Caneca trabalha continuamente para oferecer aos frequentadores um local de convivência agradável, seguro e respeitoso, sem foco em um público específico.
Cindy Butterfly -
“Mais importante do que aquilo que se pode mostrar,
é aquilo que o outro pode ver”
Caros amigos, e todos que acompanham meu trabalho...
Realmente eu fico espantado com o poder da internet (falo no masculino, pois estou, momentaneamente, deixando a personagem Cindy Butterfly de lado). Incrível como um vídeo que fiz, já cansado, depois de uma tarde e início de noite cobrindo um evento de moda - o qual fui convidado pelos seus organizadores - teve tanta repercussão.
Tratava-se do “Fashion Weekend Plus Size”. Um evento, já na quarta edição, que coloca em destaque roupas, grifes, modelos e todo um universo de mulheres que vestem roupas GG. Mulheres que, no dia a dia, já sofrem o preconceito de estar fora de um padrão de estética corporal impostas por uma sociedade, por uma cultura. Desta forma, eu que já sofri algumas vezes com o preconceito, fiquei muito feliz em ser convidado para tal evento e de poder registrar as mesmas ansiedades e desejos de meninas e mulheres que querem mostrar seu valor, sua beleza, seu carisma.
Confesso que desconhecia a extensão do evento e só pude ter uma real noção quando lá cheguei. Por esta razão, preferi me aprontar em casa mesmo e chegar pronto ao local para fazer o meu trabalho. Para tal, fui acompanhado de meu amigo que foi tudo pra mim naquele dia: câmera, carregador de mala, porta carteira e celular e, também, testemunha do caso que trato no vídeo em questão.
Baseado na minha crença (por conta de ter inúmeras amigas gordinhas e saber o quanto sofrem no seu dia a dia) resolvi prestar uma homenagem a elas e dizer o quanto todas ali eram maravilhosas e, por esta razão, acabei escolhendo um figurino clássico: a Mulher Maravilha. Ao mesmo tempo que se tratava de uma homenagem, eram também uma crítica aos padrões estipulados por nossa sociedade. E com isto em mente, me dirigi ao Shopping Frei Caneca, onde fica o Centro de Convenções, que abrigaria o Fashion Weekend Plus Size.
Ao chegar, entrei pela porta principal do shopping. Subi um lance de escadas e assim que encontrei uma dupla de seguranças, para a qual questionei onde era o local do evento. Assim que recebi a informação de que era só subir mais dois lances de escada para chegar, foi o que prontamente fiz, parando na esquina da escada rolando da praça de alimentação, onde existe um lugar onde vende café, salgado, refrigerante e parei para comprar uma bebida para mim. Neste instante, um dos seguranças se aproximou de mim e disse que eu não poderia transitar pelo shopping “naqueles trajes”, o de Mulher Maravilha. Prontamente questionei o porquê e ele afirmou se tratar de regras do shopping. Justifiquei para ele que estava ali para gravar uma reportagem e que já estava me dirigindo para o quarto andar onde fica o espaço para a realização dos eventos. Ele se afastou, falou algo no rádio, eu paguei meu refrigerante e continuei subindo rumo ao desfile. Dois seguranças, nos acompanharam à certa distância, até que finalmente subimos a última escada e lá pude fazer o que tinha me proposto a fazer naquele dia.
Não posso dizer que o segurança me abordou de uma forma grosseira, muito menos desrespeitosa. Estaria mentindo se assim o fizesse. E não posso, também, dizer que eles me pediram para me retirar do shopping. Isso não aconteceu e também nunca disse nenhuma dessas coisas. Mas, ele não me abordou por conta da minha câmera e sim, por conta da minha roupa. No entanto, achei profundamente estranha tal atitude (a de me abordarem e dizerem que não poderia estar ali no shopping daquela forma) e foi isto que desejei questionar quando produzi o vídeo, já em minha residência.
O vídeo acabou parando no blog do jornalista Vitor Angelo, que escreve para o blogay, do jornal Folha de São Paulo e acabou repercutindo de forma que até eu me assustei. Por dois motivos: primeiro, pelo número de pessoas que viram e acabaram comentando e, segundo, pelo teor dos comentários em si de pessoas que utilizam-se das mais diversas formas (pejorativas, inclusive) para criticar negativamente minha postura.
Como disse, cheguei ao shopping e subi diretamente ao local do evento. Não fiquei circulando pelo local como podem pensar alguns. Apenas passei pelos corredores necessários para a minha entrada e saída do estabelecimento. Parando unicamente para comprar um refrigerante na entrada e um café, na saída. Aliás, no café, acabei ficando mais tempo, onde fui abordado de maneira gentil e graciosa por algumas pessoas que estavam no local que até pediram para tirar fotos comigo e um grupo de senhoras que elogiaram minha roupa e minha atitude alegre com elas com elas, o mesmo ocorreu com os funcionários do café.
Assim sendo, minha atitude jamais foi ofender alguém.
Ainda assim achei muito estranho o fato de eu ter sido abordado por estar fantasiado de Mulher Maravilha e depois de ter dito que estava ali para fazer uma reportagem, a postura dos seguranças ter mudado um pouco. Me pergunto: se eu fosse um simples cidadão teria sido posto para fora?
Antes de tudo, o trabalho de uma drag queen ou de um ator transformista é uma manifestação de arte e, no meu entendimento, é livre e merece ser respeitado. Adiante, além de estar ali para cobrir o evento, também estava como consumidor e como tal, também devo ser respeitado.
Alguém alegou no blog do Vitor Angelo que o problema pode estar no fato de a roupa da mulher maravilha ser uma calcinha. Primeiro que a roupa da personagem é esta e não se tem muito o que fazer (apesar de eu estar com meia por baixo da fantasia e não ter nenhuma parte do meu corpo aparecendo além de colo e pernas), segundo porque uma calcinha pode estar estampada na vitrine e no interior de qualquer loja que venda roupas íntimas femininas (ou masculinhas, no caso das cuecas) e terceiro que, além de tudo, tinha minha capa que acobertava ainda mais a fantasia. Mas meu pergunto se, num país como o nosso, típico exportador da cultura da bunda, uma tanquinha nada sensual da mulher maravilha, é tão agressivo assim???
Enfim, o fato é que não posso afirmar qual o real motivo pelo qual fui abordado no shopping. Se por ser drag queen, se por ser homossexual, se por estar fantasiado... Não posso afirmar categoricamente que tenha se tratado de homofobia e não é o que eu afirmo no vídeo. No entanto, o shopping tem um histórico não muito recente de ações no mínimo controversas em relação aos homossexuais. Mas, mais uma vez, não posso garantir que tenha se tratado de um caso específico de homofobia. Desta forma, estou derrubando a tese de alguns que estou usando isso para poder me beneficiar de uma lei que, aliás, nem existe ainda...
Afirmo, finalmente, que minha intenção com o vídeo era de chamar a atenção sim em relação à administração do shopping e, principalmente, por ser eu uma figura pública e que luta declaradamente contra qualquer tipo de preconceito, não poderia deixar isso passar em branco (seja preconceito por conta de sexualidade, vestimenta ou qualquer outro).
Só acho estranho que, num país onde os verdadeiros donos da terra vivam nus, num país onde a principal festa popular é uma verdadeira valorização do corpo, e da inversão de papéis... Uma Wonder Woman ainda seja tanto tabu.

Escrito por Vitor Angelo às 23h27
Drag queen é barrada em shopping de São Paulo
As roupas dizem muito sobre quem as veste. Essa máxima todo fashionista ou quem entende os códigos de moda sabe muito bem. O vestuário indica a classe social, a sua tribo urbana, falam sobre gênero e também sobre individualidades.
Dominar essas regras é a melhor maneira para poder questionar, quebrar ou enfatizar imagens. As drags queens fazem isso todo o momento, ao ressaltar o quanto é caricato pensar a roupa como identificação de gênero e, em sua radicalidade - como uma espécie de clown/bobo da corte -, a fragilidade e o ridículo da crença desses códigos como imutáveis (os fashionistas e conhecedores de moda também sabem disso).
Divulgação/ A Capa

Talvez por medo dessas questões que um segurança de um shopping center em São Paulo, famoso pela forte presença de homossexuais em seus corredores, resolveu impedir que uma drag circulasse na praça de alimentação do edifício devido aos seus trajes - a abusada foi de Mulher Maravilha.
Só que ele não sabia que estava mexendo com Cindy Butterfly, militante e colunista do site gay A Capa que o questionou. Quando ela disse a palavra mágica: “eu sou da imprensa”, tudo mudou segundo seu relato. Isto é, se não fosse "da imprensa", ela não poderia andar montada pelo shopping?
Leia abaixo o que Cindy escreveu sobre o ocorrido. O Blogay entrou em contato com a administração e a assessoria do shopping para obter alguma declaração do estabelecimento e foi informado que só na segunda-feira, 18, em horário comercial, eles poderiam dar alguma posição sobre o ocorrido
Sábado, dia 16 de julho, fui cobrir um evento de moda no Salão de Convenções do Shopping Frei Caneca (inclusive, patrocinado pelo próprio shopping).
Numa grande homenagem às mulheres, me vesti de Mulher Maravilha e fui fazer o meu trabalho. Entrando no shopping, já no piso da praça de alimentação, um segurança me abordou e disse que eu não poderia ficar no shopping com aqueles trajes.
Indignada, pois estava fazendo meu trabalho (e não tenho culpa que o Salão de Convenções é dentro do referido shopping, o mesmo que já criou polêmica por conta de beijo gay e segurança na porta dos banheiros masculinos), questionei o porquê. Ele simplesmente disse que eram normas do estabelecimento. O curioso foi que bastou eu falar que era repórter e estava fazendo uma matéria que tudo mudou. Ainda assim, eles ficaram seguindo eu e meu câmera como se fossemos, sei lá, bandidos???
Resolvi gravar este vídeo, já em casa, pois achei a atitude um verdadeiro absurdo e me sinto na obrigação de falar o que aconteceu, afinal, aquele shopping sobrevive do aqué [ significa dinheiro , no pajubá] das gays que o frequentam.
Escrito por Vitor Angelo às 19h04
Da conversa entre Hebe e Ney Matogrosso
Na terça-feira, 12, Hebe Camargo recebeu, em seu programa da Rede TV!, o cantor Ney Matogrosso. Para sabatiná-lo, a apresentadora chamou duas jornalistas, Mônica Bergamo, colunista da Folha e Patrícia Maldonado, além da VJ da MTV MariMoon. Claro que a homossexualidade foi um dos assuntos centrais da entrevista e logo virou, dias depois, um debate nas redes sociais e no meio gay tanto pela sinceridade do cantor como pelo equívoco da apresentadora que reflete a mentalidade de uma boa parcela da população do país.
Reproduzo abaixo a transcrição do papo entre eles feita pelo blog Entre Nós.
Mônica Bergamo: "Você disse que foi na aeronáutica que você viu pela primeira vez dois homens se beijando. Eu queria saber como é que foi isso? O que você sentiu? Como você reagiu? Por que você era bem novo, né..."
Ney respondeu: "Eu tinha 17 anos.." E foi interrompido por Hebe: "Você ficou chocado?"
Ney: "Não. Eu desde cedo prestava muita atenção nos meninos, nos rapazes e eu temia aquilo".
Mônica Bergamo: "O que você temia?"
Ney: "Eu temia transar com os rapazes".
Hebe: "Mas você tinha só 17 anos!"
Ney: "Não, não, antes... Com 17 anos, eu estava no alojamento, era fora, tinham dois andares, uma mureta e eu vi dois remadores másculos: um sentado na beirada do muro e o outro em pé, eles abraçados e eu vi, Hebe, que tudo o que eu ouvia falar a respeito disso, não era. Não era necessariamente. Porque eu vi lá em Mato Grosso, tinha um cara da cidade, que era a bicha louca da cidade, que passava, uma Geni praticamente. E eu vi que não era necessário isso. Eram pessoas normais e eram másculos e estavam abraçados e se beijando".
Hebe: "Eles pareciam machos".
Ney: "Eles eram machos, Hebe".
Hebe: "Mas como era machos e estavam se beijando?"
Ney: "Mas Hebe, isso não passa por aí, isso é um preconceito".
Hebe: "Ué, mas eu não sou preconceituosa..."
Ney: "Mas é."
Hebe: "É que geralmente, quem é macho beija mulher."
Ney: "Se beija homem e mulher, você não sabe disso?"
MariMoon: "É verdade Hebe."
Hebe: "É mesmo?"
MariMoon: "É."
Patrícia Maldonado: "O mundo está diferente."
MariMoon: "Aliás é muito interessante pensar nisso, porque você encontrou várias gerações de homossexualismo e hoje a gente vive uma época, pelo menos na frente da porta da MTV tem um monte de menino gay e um monte de menina lésbica e é muito normal a galera ficar se pegando na porta, é uma coisa que, na época imagina..."
Hebe: "Sim querida, sim, mas é uma coisa que naquela época homem beijando homem sendo macho, é uma coisa que eu não..."
Ney: "Mas Hebe... Bom, então eu vou te dar um depoimento meu!"
Hebe: "Vamos lá!"
Ney: "Eu sou homem, eu me considero homem, namorei muitas mulheres e daí, não sou menos homem por isso? Qual é o problema?"
Hebe: “Estou em estado de choque.”
Ney: "Não perca seu tempo ficando em estado de choque."
Hebe: "Você ainda beija mulher?”
Ney: "Quer que eu te beije! Não significa nada Hebe, isso é uma convenção. Não significa nada."
[...]
Patrícia Maldonado : "Do jeito que a Hebe ficou falando 'mas como dois homens se beijando', você viveu muitos anos do homossexualismo..."
Ney: "Que anos do homossexualismo? Não entendo isso."
Patrícia: "Durante anos você viu muita coisa acontecendo, até que hoje a gente pode, graças a Deus, ver dois homens se beijando".
Ney: "Mais ou menos..."
Patrícia" Não, não, a gente vê! Pelo menos em São Paulo a gente vê. E eu acho isso ótimo porque cada um tem o direito de amar quem quiser. Mas você acha que algumas pessoas entraram nessa só pra fazer uma graça, para experimentar uma coisa?"
Ney: "Não acho que ninguém entra nisso pra fazer graça. Nos anos 70, eu acho que as pessoas entravam para experimentar, porque era tudo permitido, porque, paradoxalmente à ditadura, houve um momento de extrema liberação humana. Mas ninguém faz isso se não gostar. E ninguém vira isso. Agora vocês se chocam quando eu falo de homens másculos, eu acho lindo duas mulheres femininas se beijando"
Hebe: "Eu não tô chocada. Mas beijar na boca não. Quando ela é feminina, ela não beija na boca. Mulher com mulher, mulher que é mulher mesmo não beijam na boca."
Ney: "Estou falando de mulheres que transam com mulheres e não precisam virar um trator por isso."
Hebe: "Eu não tô acertando nada hoje".
Ney: "Você tá por fora Hebe".
Hebe: "Não tô por fora! Mas eu sou mulher e não beijaria na boca da Patrícia."
Ney: "Sim Hebe, mas você. Mas a mulher que gosta de outras mulheres não necessariamente tem que virar um macho, um homem, para beijar outras mulheres."
Dois outros depoimentos importantes de Ney Matogrosso transcritos pelo blog Entre Nós:
Sobre os guetos: "Deus me livre ir a um cruzeiro gay. Porque Deus me livre de ir a um lugar onde só tem um tipo de gente, eu gosto de ir a lugares onde tem de tudo. Eu gosto da mistura".
Sobre a mudança que espera que ocorra no mundo: "Eu acho que a grande revolução que está por ser feita é a coexistência pacífica entre todas as pessoas, independente de preferência sexual, de cor, e credo, essa é a grande revolução que está por ser feita, que não foi feita ainda e não sei se viverei pra ver".
Divulgação / Rede TV!
Bom, antes que crucifiquem Hebe Camargo, é importante saber que ela convive intimamente com gays, os conhece e os respeita [fonte minha] e ela só está reproduzindo um senso comum que muitas pessoas da geração dela e até mais jovens acreditam: que a homossexualidade passa por uma questão essencialmente de gênero, pois a ideia de homem e mulher deve ser imutável naquilo que acreditamos tanto na composição de um casal como no que chamamos de família. O discurso de Ney defronta essa ideia colocando que o gênero masculino pode formar um casal sim com outro gênero masculino assim como o feminino. É genuíno o momento que ela fica perdida e se questionando, interessada em saber sobre algo que desconhece.
Essa imagem do gay feminino foi muito desmitificada tempos atrás e hoje podemos ver até em novelas homossexuais que não são afeminados. Mas ela continua presente e intransigente ao selecionar e tachar homens héteros mais sensíveis e delicados como gays enrustidos e mulheres heterossexuais que têm poder e atitude de comando como lésbicas mal resolvidas. Libertar-se da questão que a feminilidade e a masculinidade é componente vital na orientação sexual do indivíduo é uma conquista não só para os gays, mas também para os héteros.
Ao demonstrar para Hebe – em TV aberta - que a homossexualidade não passa pela questão de gênero (não é porque um homem ou uma mulher tem características e traços de outro gênero que já é naturalmente gay ou lésbica, também ser extremamente masculino ou feminino não significa que você é heterossexual), Ney contribui para que mais uma das “verdades” criadas e propagadas sobre os homossexuais caía por terra. Os gays pertencem ao gênero masculino assim como as lésbicas ao feminino e, em regras gerais, levam características criadas ou arquétipos - para alguns - do seu gênero em potência máxima ao campo da sexualidade. Falando em linhas gerais e não em individualidades, podemos afirmar que a liberdade sexual dos homens e a vontade de relacionamento das mulheres se apresenta mais afinado tanto nos gays como nas lésbicas. Enfim, os homossexuais não atravessam a questão de gênero - papel esse dos transexuais, travestis e transgêneros -, eles aprofundam e deixam mais complexo tanto o sentido de masculinidade como o de feminilidade.
PS: Ney conta que “tinha um cara da cidade, que era a bicha louca da cidade, que passava, uma Geni praticamente”. É também importante não negar os gays femininos pois eles existem e são nossa parte mais visível, devem ser respeitados até por serem uma espécie de vanguarda – muitas vezes inconscientes – na luta pelos direitos gays. Além disso, são parte da complexidade do que é ser um homossexual.
Escrito por Vitor Angelo às 23h02

