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A contribuição dos gays, lésbicas e travestis para o mundo

 

A ficção imita a vida: gays espancados em novela e nas ruas

Na noite de quinta-feira, 04, a violência se efetivou finalmente para cima dos gays da novela “Insensato Coração”, na TV Globo.  Na trama, o bad boy Vinícius (Thiago Martins) e sua gangue cercam o homossexual Gilvam (Miguel Roncato) e dizem que irão “ensinar como se vira homem”. A agressão que se segue leva à morte do garoto. As palavras homofobia e preconceito – seguindo ordens superiores da emissora – foram abafadas do texto, mas as imagens de violência contra uma minoria estavam muito bem representadas.

Enquanto isso, na tarde dessa mesma quinta, um rapaz foi confundido com um gay, segundo informações da Folha, e espancado em uma avenida no centro do Rio de Janeiro,  cidade onde se passa a trama de Gilberto Braga.

A Folha também noticiou, na manhã desta sexta-feira, 05,  que três adolescentes agrediram dois gays, mas esses reagiram e houve uma briga dentro da estação do metrô Anhangabau, em São Paulo, cidade onde se passa a trama do vereador Carlos Apolinario e seu Dia do Orgulho Heterossexual. O fato aconteceu na quarta-feira, 03, à noite. Todos foram detidos, as duas vítimas tiveram ferimentos leves. “O Metrô afirmou que seus agentes acompanharam os cinco jovens à Delpom, onde o caso foi registrado como ato infracional”.

Se houvesse uma lei específica contra a homofobia, não haveria a soberba desses grupos de marginais que espancam quem eles julgam ser gay (e às vezes não são). Da mesma forma que - com uma lei de proteção contra o racismo - a soberba racista teve que se calar e não mais falar “macaco” de forma pejorativa para os negros, os homossexuais merecem também ter sua dignidade física e social respeitada.

Mas isto parece que está longe de acontecer tanto na novela como na ficção. A violência contra os gays faz parte de uma cultura do ódio tão bem expressa na novela, quando no capítulo de terça-feira, 02, os pitboys destruíram o quiosque colorido da trama e picharam: “Lugar de gay é no inferno”.  Só que eles esquecem um detalhe, para muitos homossexuais expulsos da família, humilhados na escola, violentados por marginais intolerantes, o inferno é aqui.

Escrito por Vitor Angelo às 15h40

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O que a censura de um filme tem em comum com os gays hoje no Brasil?

Post atualizado no dia 05/08/2011

No meio cinematográfico esse é o assunto faz um mês, a censura ou veto de exibição – como preferem alguns - do filme “A Serbian Film – Terror sem Limites”, em todo território nacional. Por determinação da juíza Jatahy Nygaard, da 1ª Vara da Infância, da Juventude e do Idoso do Rio de Janeiro, a ação movida pelo Diretório Regional do Partido Democratas (DEM) contra a película foi aceita. A razão justificada é que o filme apresentava, ou melhor – no olhar dos inquisidores – estimulava a pedofilia entre outras amoralidades. Logo se formou uma forte mobilização do meio de cinema (e parte da sociedade progressista) contra o veto, com petição pública em repúdio à ação, mostra de filmes censurados e no sábado, 06, o Festival de Gramado realiza seminário em repúdio à censura com foco no que aconteceu com o “A Serbian Film”.

Nas comunidades gays esse é o assunto dos últimos dias, a aprovação, na Câmara dos Vereadores de São Paulo, do Dia do Orgulho Heterossexual ou Dia do Homofóbico Enrustido – como preferem alguns. O dia foi criado por um vereador do DEM e pretende exaltar os valores da família. Logo se formou uma forte mobilização de gays e também héteros para que o prefeito Gilberto Kasssab vete essa aprovação com petição pública, artigos de inúmeros jornalistas questionando a data e no sábado, 06, organizado pelas redes sociais, tem a Marcha Pela Responsabilidade Política em frente da Prefeitura de São Paulo para questionar a tal lei.

[Nesta sexta-feira, 05, o filme "A Serbian Film - Terror sem Limites" foi liberado para maiores de 18 anos para todo o território nacional, menos para o Rio de Janeiro, pois lá ainda existe a aprovação da ação feita contra o filme. E a manifestação na prefeitura de São Paulo contra o Dia do Orgulho Hétero foi cancelada, mas haverá um encontro na Câmara dos Vereadores na terça-feira, 09, entre políticos e população e militantes que querem o veto do tal orgulho.]

Podemos perceber que as redes sociais têm cumprido um papel importante na efetivação e no aprendizado do que é ser cidadão no Brasil. Podemos perceber também a participação de um partido político, o DEM, no centro desses debates. É interessante notar que não por acaso, na árvore genealógica dos Democratas se encontra a Arena, o partido que reinou durante a ditadura militar, período de grande repressão e censura.

Mas são um pouco óbvias essas semelhanças. O ponto de comunhão entre esses dois assuntos está no que parecem ser suas diferenças. Enquanto um luta contra a censura, o outro deseja o veto.

Sobre o filme, em vídeo durante protesto contra a ação no Cine Odeon, o cineasta Eduardo Valente disse: “não assisti nem assistirei, mas sou a favor que seja exibido”. Um artigo interessante de Luciano Trigo, no portal G1, coloca a seguinte observação: “ se um programa de televisão contém cenas que incentivam o racismo ou a homofobia, ele pode ser retirado do ar. Isso não é censura, é cumprimento da lei, é a garantia democrática de minorias que se sentem atingidas lutarem pela não-circulação desses conteúdos”. Mas diferente da televisão, o cinema assim como outras manifestações artísticas partem de um espectador extremamente ativo, ele deseja assistir aquilo, muito diferente de uma certa passividade que a televisão impõe. Mesmo pensando na questão do controle remoto como um adicional para a atividade do telespectador, o ato de ir ao cinema, de escolha do que quer assistir, a grande maioria das vezes pagando ingresso, torna o espectador de cinema muito mais pleno de individualidade – em um certo sentido – do que o de TV.

Um dos argumentos contra o filme é que ele é a favor da pedofilia ou a enaltece – quem teve a chance de assistir o filme nega essa tese. Mas se a regra é válida, tanto o clássico “Lolita” de Vladimir Nabokov ou sua a versão cinematográfica feita por Stanley Kubrick (1962) como a dirigida por Adrian Lyne (1997) deveriam ser banidos para sempre, e assim também seria o caminho do seriado “Presença de Anita” que a TV Globo exibiu tempos atrás.

Outro argumento consegue ser pior que o moral que é de teor estético. Diz-se que o filme é ruim e por isso deve ser censurado, oras então o que “Assalto ao Banco Central” está fazendo nas telas? Brincadeiras à parte, além de perigoso, esse critério denuncia a ideia de autoritarismo, porque alguém com um gosto superior vai decidir se isso é bom ou ruim para os outros.

Sobre o Dia do Orgulho Heterossexual, já explanei em outro post as razões que servem aqui. Existe ali, um movimento de distorção de quem luta pelos seus direitos ainda não adquiridos na sociedade com o perverso discurso que se eles têm um dia, nós também vamos ter porque eles (os homossexuais) querem ser superior a nós. Mas se dia de hétero é todo dia, porque um dia específico para enaltecer algo que já é garantido. E o pior é a desculpa que serve para valorizar a família. Ora, isso representa que os gays não têm valores familiares e nem merecem, isto é, já na data está implícita a luta contra adoção de crianças por casais gays e mesmo a união homoafetiva. Enfim, é uma dissimulação que abre espaço para o autoritarismo, pois é mais uma data - se aprovada - de exaltação da superioridade do que de luta por direitos.

As conclusões são que tanto o veto como o ato contra a censura são iguais pois demarcam posições contra um certo autoritarismo crescente no país: o autoritário que quer dizer que filme devemos assistir ou que deseja – em desprezo às minorias ainda sem leis e direitos no Brasil – se orgulhar de sua soberania.  

 

Abram alas para o velho autoritarismo brasileiro. NOT

Escrito por Vitor Angelo às 23h04

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Algumas observações sobre o Dia do Orgulho Heterossexual

Nesta terça-feira, 02, foi noticiada a aprovação, na Câmara dos Vereadores de São Paulo, do Dia do Orgulho Heterossexual. Quando li essa reportagem logo pensei: gente, os héteros estão na pior?

Sim, porque uma amiga minha muito esperta sempre que a gente de maneira simpática a cumprimentava pelo Dia da Mulher, ela dizia na lata: “Tá me dando parabéns por quê? Só gente ferrada tem dia, Dia do Orgulho Gay, Dia da Consciência Negra, Dia do Índio, veja se existe Dia do Branco, Dia do Hétero... Todo dia é dia deles.”

Pois bem amiga, agora aqueles que amam as pessoas de sexo diferente também vão ter na desvairadérrima Pauliceia um dia para chamar de seu e não mais todos os dias da semana, do mês e do ano.

Isso muito me preocupa e pensei até em escrever para o nobre vereador evangélico Carlos Apolinario (DEM), autor do importantíssimo projeto, para ele me esclarecer o que está acontecendo. Porque se os héteros estão sendo assassinados por sua conduta sexual, se estão sofrendo humilhação nas escolas ou no trabalho pela orientação sexual, ou pior, se o beijo hétero está sendo vetado, temos sim, que sair em causa dessa população. Não podemos deixar marginalizar os héteros, como não podemos deixar que nenhuma minoria seja considerada cidadã de segunda categoria. Afinal, a discussão não é por supremacia e sim por igualdade.

E temos que defender os héteros sim, ainda mais que alguns, diferente do sr. Apolinario, apoiam a causa gay e a luta contra o preconceito aos homossexuais.

Mas sinceramente “santo” político, acho que os héteros estão bem quanto a sua sexualidade, o que anda mal na cidade de São Paulo é a educação, a saúde e a limpeza do município que era onde o senhor deveria erguer suas preces, seus dízimos, seu poder político e tentar realmente fazer a diferença e não reforçá-la no pior sentido da palavra.

PS: Se o dia vingar - falta a aprovação do prefeito Gilberto Kassab -, espero que a festa seja bem alegre, inteligente e bacana – como são os meus amigos héteros que estão bem longe da homofobia dissimulada por baixo desse data - e prometo participar pois estou do lado da inclusão não da divisão.

                                                                          Apu Gomes/Folhapress

Uma sombra de ideias poluídas paira pela Pauliceia Desvairada

Escrito por Vitor Angelo às 21h26

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Blogay Blogay é editado pelo jornalista e roteirista Vitor Angelo. Foi colunista da seção GLS da Revista da Folha.


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