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A contribuição dos gays, lésbicas e travestis para o mundo

 

Rede social promove manifestação em repúdio ao espancamento de casal gay na região da Paulista

Existe uma lógica da espontaneidade nas redes sociais que às vezes fazem surgir desde campanhas como a “Eu Sou Gay” até a chamada Primavera Árabe. E foi dentro dessa mesma coerência que dois amigos, o designer e músico William Cavagnolli e a designer gráfica Cris Naumovs, indignados com o espancamento de um casal gay em frente ao restaurante Mestiço, na zona central de São Paulo, resolveram convocar para esse sábado, 08, uma manifestação silenciosa no mesmo local que ocorreram as agressões.

“A partir das 23h30, na mesma hora, na mesma esquina, com uma vela. Sem bagunça, sem loucura, sem fervo. Ficar meia hora e ir embora. As pessoas têm que saber que a gente não acha isso normal”, é a mensagem escrita na página da manifestação no Facebook.

O Blogay procurou Will e Cris que responderam também via Facebook às razões que levaram os dois a responder os socos e pontapés com as luzes das velas.

“Temos que fazer alguma coisa ao menos, já que ninguém fez e nem faz. Por estarmos perto de casa... pensamos que isso talvez nunca irá acontecer conosco. O fato é que o Marcos é meu amigo pessoal, já tocamos juntos, conheço a mãe dele, enfim... Uma pessoa que não faz mal a ninguém. Eu não sou homossexual e já sofri diversas formas de preconceito pelo meu gosto musical ou pelo meu jeito de se vestir e de pensar. Tenho amigos gays e ando com eles, convivo com eles no maior respeito e amizade que qualquer pessoa no mundo deve ter com a outra. Acredito na amizade e principalmente no respeito, pois acho que isso é o princípio para que as pessoas possam viver nesse mundo que é um caos, com violência contra qualquer pessoa, homens e mulheres (héteros ou gays), crianças, idosos, mendigos, jovens na periferia enfim... A intolerância vem de todas as partes, do governo, da polícia, do povo... Exatamente nessa pirâmide pois vivemos com medo da polícia e do governo, pois eles são os que ditam as regras e os que deixam a coisa toda acontecer”, desabafa Will.

Para Cris, a falta de resposta clara das autoridades contra a violência que parece estar cada vez mais próxima das pessoas é o que mais a angustia. “Esse sentimento de absoluta impunidade nesses casos tá me enlouquecendo porque não acontece porra nenhuma com quem arrebenta a cabeça de alguém numa calçada, ninguém faz nada, nem segurança, nem frentista, nem nada. E a sensação de que está muito mais perto de mim me assusta. E aí, o sentimento é de reação porque não vou me trancar em casa porque tem esses animais soltos na rua. Vamos mostrar que sim dá pra se mobilizar, que sim tem gente de olho na investigação, que sim o dinheiro das bichas e das sapatas vale muito nessa região”.

Em uma época que o alvo da intolerância não é apenas ser gay, mas sim parecer gay, a radicalização da homofobia também perturba Will: “Devemos cobrar atitude do Governo para que se cobre da polícia e da sociedade em forma de lei e conscientização. Espero poder ajudar de alguma forma e que na rua vire um ato simbólico não de protesto, mas de aviso. Pois você, seu filho que não é gay ou seu sobrinho que não é gay pode ser confundido com um gay e ser morto por isso”.

Escrito por Vitor Angelo às 19h40

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Melancolia (essa de todos nós)

Assinalado em vermelho, o "acorde tristão"

O fim do mundo ou pelo menos de um mundo foi o que pensaram os ouvintes do “Prelúdio de Tristão e Isolda”, de Richard Wagner, em 1865, ao escutarem pela primeira vez aquela estranheza sonora. No sistema tonal (aquele desenhado genialmente por J.S. Bach e base da maioria das músicas populares que cantamos até hoje) é sempre realizado um ritual harmônico que tudo se encaixa e existe a sensação de completude. Mas o compositor alemão fez questão, através do tal “acorde tristão” de deixar o ouvido acostumado a essas convenções tonais com a sensação de algo incompleto ou infinito como o amor dos dois protagonistas dessa ópera – símbolo do prelúdio/antecipação da música e do pensamento musical que surgiria depois em todo o século 20.

Não é à toa que o filme de Lars Von Trier, o comentado “Melancolia” (2011), para retratar o fim do mundo, usa-se em sua abertura exatamente esta obra que questiona um sistema, uma “fórmula” (musicistas e estudiosos, desculpem-me o reducionismo). E assim o diretor constrói suas primeiras imagens como um prelúdio, adiantando tudo que irá acontecer no decorrer da história. Ele antecipa visualmente, assim como o prelúdio faz musicalmente com os temas, todas as ações que depois tentarão se completar na história que formaremos em nossos olhos e ouvidos.

Tristão e Isolda para o cineasta dinamarquês são as irmãs Justine (Kirsten Dunst) e Claire (Charlotte Gainsbourg). Não estamos mais no terreno medieval e sim no mundo contemporâneo, nem no terreno da carnalidade e do filtro do amor mítico, mas do fraternal. Uma não consegue se enquadrar às convenções e a outra luta para que essas regras nunca se percam, nunca saíam do controle.

Uma não suporta o mundo que vive, a outra o suporta em demasia. A aproximação do planeta Melancolia – o “acorde tristão” - que destruirá a Terra denuncia que rejeição e aceitação não terá lugar numa nova ordem, pois essa terra já não existirá.

Em um momento emblemático do filme, Claire propõe à irmã esperar o fim do mundo apreciando-o como um espetáculo [burguês?], tomando um bom vinho na varanda escutando a 9ª Sinfonia de Beethoven. É assim o mundo que ela conhece.

Porém, Justine se recusa e prefere o mundo místico, mágico, que desconhece pelo sua total inadequação aos ritos, mas o intui ao ficar nua à noite sob a luz do planeta Melancolia. Para ela, talvez seja melhor formar uma tal cabana mágica.

[Um devaneio: a música do mundo mágico e mítico é conhecida como modal, os conhecidos sons do transe, que depois a tonalidade veio organizar e dar racionalidade. E a influência/mudança/fim proposta pela música de Wagner (principalmente em “Tristão e Isolda”) além de rumar para terrenos inesperados  - o atonalismo, o serialismo, etc – também recuperou a chamada música modal]

É também na terra mística e mítica que a ideia de fim se transforma. Nela, o fim sempre  significa encerrar um ciclo. Shiva, por exemplo, no hinduísmo, é tanto o deus da destruição como da transformação. O que termina, e sem querer parecer apocalítico ou distópico, é o mundo que conhecemos.

E a melancolia do título? Para além das análises clínicas e psicológicas e das excelentes observações de Freud em “Luto e Melancolia” (1917) e sendo mais simplista, no dicionário Aurélio diz que melancolia significa: 1.Estado mórbido de tristeza e depressão. 2. Estado de languidez e tristeza indefinida 3. Desgosto, pesar.

Durante a Idade Média e começo da Moderna, a melancolia era considerada um sintoma de pessoas que têm o conhecimento.

No filme, tendemos a identificar a melancolia com a personagem Justine, mas na verdade ela está em off, do outro lado da tela, somos nós os verdadeiros melancólicos. Com pesar, tristes ou lânguidos, apocalípticos ou integrados, os que rejeitam e os que aceitam, assistimos o fim, sem saber o que virá e se virá...

PS: Antes que reclamem que esse texto não tem relação com gays ou homofóbicos - um dos propósitos desse blog existir -, só alerto que não quis ser muito didático.

Escrito por Vitor Angelo às 23h35

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Blogay Blogay é editado pelo jornalista e roteirista Vitor Angelo. Foi colunista da seção GLS da Revista da Folha.


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