Blogay

A contribuição dos gays, lésbicas e travestis para o mundo

 

Revista hétero publica beijo gay em sua capa

                   Caio Cezar / Divulgação - Revista Trip

A imagem acima é corajosa. A palavra é justa para esse momento que vivemos hoje em que os direitos gays viraram bode expiatório para fundamentalistas espalharem o seu ódio. É preciso ter colhão para escolher essa imagem como capa seja de qualquer publicação, mesmo ela voltada ao público homossexual. As revistas gays atuais nunca a exibiram (teve o caso da extinta Sui Generis que exibiu um beijo entre homens e foi recolhida, isso ainda nos simpatizantes anos 1990). Então acabou que, nesta quarta-feira, 19, foi uma revista voltada para héteros, surfistas e pegadores que teve a ousadia de, sem alarme, demonstrar em sua capa o afeto físico entre dois homens.

Já escrevi aqui que não existe uma guerra entre gays e héteros – isso é uma falácia que os intolerantes controem e divulgam para alarmar os menos informados dizendo que uma tal ditadura gay está para reinar -, muito pelo contrário, existe hoje uma tensão entre os que anseiam por liberdade (sexual, espiritual, moral) contra os que querem vigiar, punir, impor dogmas, enfim, oprimir. E o exemplo maior acaba de ser dada pela Trip, uma revista voltada para jovens heterossexuais, mas que bem resolvidos, não vêem problemas em ficar rotulando e questionando a sexualidade dos outros. Saindo do óbvio, é mais que uma edição que os gays estão em pauta, o que está em jogo é a liberdade, ser livre.

Blogay fez três perguntas para Lino Bocchini, 37 anos, redator-chefe da revista Trip, sobre essa edição que, para muitos como eu, já nasce histórica.

Blogay - Como surgiu a ideia de revista voltada para um público hétero, tocar em um tema tão delicado como liberdade sexual e homofobia?

Lino Bocchini - Entendemos que essas questões não têm sexo e muito menos orientação sexual. A condenação radical da homofobia e o esforço para que todos aceitem o amor do outro, seja que tipo de amor for -- e não só o que foi convencionado como "adequado" -- deveria ser uma preocupação de todos nós.

A revista resolveu se posicionar contra a homofobia?

Sim, abertamente. Está escrito na nossa capa: "HOMOFOBIA É CRIME: INTOLERÂNCIA SEXUAL TEM QUE TER PUNIÇÃO PESADA"

Como surgiu a ideia da capa de dois surfistas se beijando? Como vocês produziram essa foto?

Primeiro, resolvemos fazer a matéria mostrando que, entre surfistas, também há gays. Em tese, essa reportagem poderia ser boba, uma vez que, obviamente, há gays entre qualquer classe ou recorte social/profissional/esportivo. Mas sendo a Trip uma revista que tem o surf em seu DNA (há 25 anos olhamos para a cultura do surf) achamos que nesse caso valia o destaque, seria uma forma de colocar a publicação em si, de forma institucional, como simpatizante dos gays e de sua aceitação e também da diversidade sexual em geral. Bom, isso decidido, quando estávamos discutindo como fotografar os personagens da matéria, pensamos que nada mais contundente do que dois surfistas homens se beijando -- uma ideia da redação que teve total aprovação da direção da editora. Aí começamos a convidar alguns surfistas para a foto, até que esse casal bacana, de Florianópolis, topou. O resultado taí pra todo mundo ver e nos deixou bastante felizes.

Escrito por Vitor Angelo às 22h14

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A arte de sair do armário

O termo “sair do armário”, para aqueles que não sabem, é o momento que a pessoa assume sua homossexualidade ou sua transexualidade ou ainda sua bissexualidade, isto é, uma declaração para o outro, mas mais ainda para si próprio, que sua condição sexual não é a padrão, a da heterossexualidade.

Não existe momento mais problemático na vida de um gay ou de uma lésbica do que sair do armário, mas também não há hora mais reconfortante para suas agonias – por mais que as consequências possam ser duras como muitas vezes a expulsão de casa, a tristeza de um familiar querido e a incompreensão. Existe para todos os homossexuais, travestis, transexuais e bissexuais, uma sensação de alívio, de um fardo pesado que foi tirado do corpo, da alma.

A ideia de sair do armário tem sua poesia. Passa pela imagem daquela roupa bolorenta e mofada que você leva para tomar ar, que você redescobre como bela. Também traz a ideia de libertação, de fim de um sufocamento.

Simbolicamente, o armário também traz no imaginário o ícone de passagem. Quantas lendas modernas têm o armário como o veículo para um outro mundo e sair do armário é tomar posse de um sonho, de uma irrealidade que se torna verdade, real. Assumir-se homossexual e outras variantes que não a heterossexualidade, é um turning point (ponto de virada) na vida de todos que fizeram esse ato. Mas esse processo é pessoal, individual. Não há fórmulas, nem o momento certo ou uma hora perfeita padrão, cada um sabe o seu.

Durante um tempo, foi comum, por uma grosseria do movimento homossexual, tirar pessoas famosas do armário – e ainda é comum (por uma grosseria também) em muitos sites e revistas de fofoca dar continuidade a esse péssimo hábito. Não se tem o respeito à individualidade, ao tempo que a pessoa precisa para respirar fundo e assumir: “sim, vou ser mais feliz sendo quem sou, sem hipocrisias”.

Não é algo fácil, muita coisa pode estar em jogo. Como os amigos me aceitarão? Como, no trabalho, as pessoas me receberão? E o mais importante, como minha família irá reagir? Essas respostas só cabem a história particular de cada indivíduo.

O ator Zachary Quinto, de 34 anos, que interpretou o dr. Spock no remake de “Jornada nas Estrelas” e na série "Heroes" foi o vilão Sylar, assumiu sua homossexualidade neste final de semana no meio de uma entrevista para a New York Magazine.

Na sequência, o âncora da ABC News, Dan Kloeffler, resolveu sair do armário ao vivo para todos os telespectadores.

Com certeza, tanto a casualidade de Zachary de revelar (e se revelar) ao público no meio de uma entrevista, com uma simples frase, assim como o estardalhaço do apresentador de TV fazem no final parte do mesmo gesto. Um gesto para outro, mas mais ainda para si próprio, um gesto de alívio.

E foi exatamente essa a sensação que a MTV provocou na quarta-feira, dia 12, que anarquicamente ao invés de comemorar o Dia das Crianças resolveu fazer uma programaçãoo totalmente gay, o MTVALOCKA.

Os VJs Jana Rosa e Didi pediam para gays que quisessem sair do armário para ligarem para a emissora e se declararem ao vivo, com orgulho. Todos, que durante aquela tarde, assumiram ser gays eram muitos jovens, tinha necessidade de falar, sentia-se a agonia e a apreensão, mas depois de tudo a sensação de alívio, de dever cumprido. Foi um lindo momento da emissora!

Como disse acima, não tem fórmulas, mas como escrevi no título, é uma arte, uma arte que só você saberá o momento de expressar.

Escrito por Vitor Angelo às 23h43

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Blogay Blogay é editado pelo jornalista e roteirista Vitor Angelo. Foi colunista da seção GLS da Revista da Folha.


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