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A contribuição dos gays, lésbicas e travestis para o mundo

 

Será Britney Spears uma nova Judy Garland?

"I Don't Care", um dos hinos gays cantados por Judy Garland

Judy Garland é um dos maiores ícones dos homossexuais de todos os tempos. Reza a lenda que Stonewall – o levante de travestis e gays no hoje famoso bar do Village em Nova York contra o abuso policial que começou no dia 29 de junho de 1969 – teria como um dos motivos a falta de respeito das autoridades ao luto dos homossexuais pela morte da atriz e cantora que falecera no dia 22 de junho desse mesmo ano.

Durante as opressivas (para os gays) décadas de 1950 e 1960, os shows de Judy Garland eram espaços de liberdade para a comunidade homossexual. Lá, como uma espécie de Oz, era possível a mágica de casais gays ficarem de mãos dadas e até arriscar um beijo pudico sem maiores repreensões. Era lá que, em um mundo que os homossexuais eram considerados seres extraterrestres, eles poderiam encontrar os seus pares e perceberem que não eram os únicos.

A escolha de Judy não era em vão, existia uma identificação com o nascimento de uma estrela incompreendida, a que sofre por amores não correspondidos, a viciada em pílulas, a desiludida que tenta suicídio, a artista que flerta sem problemas com o camp e mais do que isso, a mulher que sabe dar a volta por cima.

Se existe alguma comparação no título desse post entre Judy e Britney está muito mais nos valores colocados no parágrafo anterior. Britney não tem a voz emocional de Judy, nem fez grandes papeis no cinema como “Nasce uma Estrela” (1954) ou “O Mágico de Oz” (1939), mas igualmente à artista, teve uma família que a pressionou desde cedo ao sucesso.

Britney teve que segurar a onda de ser questionada durante toda sua adolescência sobre sua virgindade, depois teve aquilo que muitos chamam de "fase difícil" quando começou a frequentar festas, aparecer em fotos parecendo sempre alterada, cortar o cabelo careca, atacar paparazzi, perder a guarda dos filhos. Mas foi a partir desse momento de humanidade que muitos, como este blogueiro, começou a prestar a atenção nessa menina de Mississippi. O que eu achava que era mau gosto, virou camp e a princesinha do pop conseguiu contornar todas suas dificuldades. Desfecho importante tanto para Judy Garland como para os gays.

                                                                     Eduardo Anizelli/Folhapress



Nesta semana, Britney esteve no Rio e em São Paulo apresentando sua turnê Femme Fatale e mais do que qualquer outra artista pop da atualidade, havia um consenso que aquele show era para os homossexuais.  Generalização boba – mas não com um fundo de alguma verdade - até porque o número de mulheres e de casais héteros presentes na apresentação da cantora era bem visível. Mas é claro que tinha algo gay no ar. Os casais homossexuais andavam de mãos dadas, se beijavam livres de qualquer repressão como nos espaços de liberdade que um dia foram os show de Judy Garland.

Os tempos são outros, a repressão aos gays se opera de outra forma, mas o fato de ainda ser uma mulher (a antagonista do patriarcalismo) o grande ícone para muitos gays, um meio que sofre de forte misogenia, já é um grande dado, seja Britney, Rihanna, Beyoncé, Katy Perry, Lady Gaga...

Abaixo, fãs esperam uma semana antes na porta do show de Britney no Rio

Escrito por Vitor Angelo às 23h47

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Sobre orgulho: Foo Fighters responde para Courtney Love

Dave Grohl do Foo Fighters

Quando o Nirvana veio ao Brasil em 1993, o vocalista Kurt Cobain disse em uma entrevista que era a favor dos direitos homossexuais e contra o preconceito que os gays sofriam. Uma das frases atribuídas a ele é: "Eu não sou gay, embora desejasse que o fosse, só para lixar com todos os homofóbicos".

Na recente visita de sua viúva, Courtney Love, que trouxe sua banda Hole pra tocar no SWU no dia 13 de novembro, ela disse de maneira zombeteira: "Foo Fighters are gay" ["Foo Fighters são gays"]. A banda é do ex-baterista do Nirvana e um grande desafeto de Love, Dave Grohl.

Afirmar de forma categórica que Courtney Love é homofóbica não procede, devido ao seu passado, sua ligação com os gays, suas relações sexuais com outras mulheres e o ambiente mais libertário que ela vivia com Cobain. Mas é claro que existe uma pequena mentalidade homofóbica introjetada nela (assim como em todos nós). Ao xingar sua banda rival, ela usa o termo homossexual no sentido de algo inferior.

É básico esse processo de inferiorização ("anormal", "antinatural") ou supervalorização ("ditadura gay") no discurso homofóbico. Por que não se debate na verdade que a questão não está nem na inferioridade ou na superioridade e sim, igualdade.

Mas a banda Foo Fighters deu um bom exemplo para responder quando utiliza-se as palavras gay ou homossexual de forma a querer inferiorizar o outro. Dave Grohl, em seu show em Nova York, no dia 14 de novembro, colocou a bandeira do arco-íris, símbolo do movimento LGBT, em sua guitarra.

De forma simples, ele não acolheu a ideia de inferioridade e projetou orgulho para toda a plateia.

Escrito por Vitor Angelo às 22h03

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Historiador e militante gay é assassinado em Maceió

A 11ª Parada Gay de Maceió, que aconteceu no domingo, 13, nas orlas de Pajuçara e Ponta Verde, foi um pouco menos alegre. Na madrugada de sexta, 11, foi assassinado o historiador Zequias Rocha Rego, 57. Ele foi um dos fundadores do Grupo Gay de Alagoas (GGAL), a ONG responsável pela organização da parada na capital alagoana.

Zeca, como era conhecido, trabalhava como assessor da Coordenadoria Executiva do Programa Nacional de Inclusão de Jovens (ProJovem). O militante foi morto em seu apartamento com duas perfurações de faca cravadas no pescoço. Ele morava no Conjunto Alfredo Gaspar de Mendonça, no bairro de Jacarecica, em Maceió. A polícia que investiga o crime diz que, por ter objetos quebrados pela casa, acredita ter ocorrido luta corporal. Testemunhas alegam que três homens usaram um carro e uma moto para fugirem.

A tese policial é de latrocínio (roubo seguido de morte), mas segundo o delegado responsável, Egivaldo Lopes, declarou à imprensa, também não está descartada a hipótese de crime de ódio.

Para termos uma ideia do estado das coisas ainda hoje, a hipótese de homofobia que será investigada pelo delegado é um avanço, dentro das centenas de crimes que esse dado simplesmente é escondido, desprezado ou escamoteado. Muitos policiais descartam de cara que a motivação de um assassinato possa ter origem na homofobia mesmo a vítima sendo um homossexual ou tendo indícios de crime de ódio.

É claro, apesar dos obtusos reacionários fingirem nunca perceber, que o fato de uma pessoa ser gay não necessariamente faz com que seja vítima de um crime homofóbico. Às vezes, a razão mesmo está apenas em um assalto mal executado ou cheio de perversões. Mas também, muitas vezes o componente de ódio está presente e deve ser investigado. E não descartado em um primeiro momento, como temos assistido na maioria dos casos ocorridos contra homossexuais ultimamente.

É urgente que a polícia tome consciência que a homofobia existe e é forte a ponto de fazer um jovem fritar o fígado de um homossexual. Descartar de primeira mão investigar a possibilidade do crime homofóbico é novamente jogar os homossexuais como seres vulneráveis à falta de justiça.

O mesmo acontecia com a mulheres (e talvez em alguns lugares ainda aconteça), que ao serem estupradas eram tratadas nas delegacias mais como culpadas do que vítimas pois o estupro numa mentalidade patriarcal – e que rege boa parte da polícia ainda hoje - só acontece porque a mulher “facilita”.

Como disse (repetindo para os obtusos reacionários), não é todo homossexual assassinado que sofreu um crime homofóbico, mas essa possibilidade nunca deve ser deixada de lado pelos investigadores. Por isso, é um avanço o delegado de Maceió se perguntar se Zeca foi vítima ou não de homofobia.

Enquanto isso nas ruas de Maceió, em pleno domingo, os gays, lésbicas, bissexuais e trangêneros pedem: ““Não Matarás pelo Fim da Homofobia e Pela Paz”.

Escrito por Vitor Angelo às 23h43

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Blogay Blogay é editado pelo jornalista e roteirista Vitor Angelo. Foi colunista da seção GLS da Revista da Folha.


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