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A contribuição dos gays, lésbicas e travestis para o mundo

 

Em defesa de Crô

                                                                           Divulgação / TV Globo

Quando a novela “Fina Estampa” começou, muitas comunidades gays na internet começaram a criticar Crô, o homossexual interpretado por Marcelo Serrado. Para muitos homossexuais, o personagem não passava de um “terrível estereótipo” ou “não representava os gays”.

Como um personagem de ficção, Aguinaldo Silva, o autor do folhetim, o construiu e mostrou a todos em seu blog antes da novela começar, no dia 05 de julho. "O nome dele é Crodoaldo Valério. Devia ser Clodoaldo, se o escrevente do cartório não tivesse errado na hora de redigir o seu registro de nascimento. Pra fugir à vergonha de ter um nome tão esquisito, ele se apresenta como Crô, e é assim que o chamam. Ele diz ser o 'secretário particular' de Tereza Cristina de Siqueira Velmont (Cristiane Torloni), mas esta, nos seus frequentes momentos de mau humor, o chama pura e simplesmente de seu 'peniqueiro'”, descreve.

“Crô é antenadíssimo, atualizadíssimo, bem informadíssimo… E fresquíssimo! Pois, 'premiado pela loteria do destino' como ele mesmo diz, nasceu gay”, emenda Aguinaldo.

Antes de tudo, acredito que em uma minoria que a diversidade é uma proposição, um princípio, é muito difícil alguém conseguir abarcar todas as siglas ou mesmo todas as tribos gays que existem em um personagem só - mesmo "Insensato Coração" com seus inúmeros tipos de homossexuais, não conseguiu dar conta daquilo mesmo que é diverso em sua essência.

Porém, o fato de ele ter orgulho de ser gay “premiado pela loteria do destino” já indica que ele é uma das nossas melhores representações. Apesar de desconfiar desta questão da literalidade do espelho (será que preciso me sentir espelhado fielmente para poder me sentir representado?), o que é realmente triste é que, de certa forma, os gays ao negarem outros gays por suas aparências, acabam por incorrer no mesmo erro dos que chamamos de preconceituosos.

Isso nos joga na questão do estereótipo. O fato que incomoda muitos homossexuais é de Crô ser feminino. Já escrevi inúmeras vezes na extinta coluna GLS da Revista da Folha e já toquei nesse assunto aqui também. O gay quanto mais masculino, mais aceito e quanto mais feminino, mais preconceito, porque a homofobia e a misoginia andam de mãos dadas. Ser mulher é bem pior que ser homem no pensamento patriarcal, óbvio.

Gostaria de saber se ninguém conhece alguém parecido com Crô? Eu conheço vários gays como ele, não existe nada de estereótipo, o que existe é rejeição ao feminino – não estou nem falando de fetiche sexual, estou falando de mentalidade, o que é muito pior.

Aguinaldo Silva ainda em seu blog no texto "Eles Querem Dominar o Mundo" conta que foi caminhar e foi abordado por um ciclista gay. O autor descreve o diálogo:

“’Você não tem vergonha?’

‘De quê?’ – eu lhe devolvo a pergunta.

E ele: ‘De botar na televisão um gay escroto feito esse tal de Crodoaldo. Por que você faz isso?’

‘Porque eu quero, ora bolas!’ – É a minha resposta com a qual espero encerrar o papo, mas cometo um ledo engano…

Pois o cidadão dá início à sua réplica: ‘Nós gays não somos pintosos daquele jeito, somos pessoas normais, que queremos viver vidas comuns, casar e ter filhos’. [...] ‘Você não passa de um cínico! Um cara que escreve novelas, ainda mais um homossexual – como você diz que é, mas eu não acredito -, tem que dar um bom exemplo às novas gerações de gays!’

[...]

‘E quanto ao Crô, o que eu faço com ele?’ – provoco.

‘Faz aquele puto morrer atropelado e se joga na frente do carro junto com ele, seu viado’ – ele diz”.

O fato de Crô ser feminino ainda incomoda muitos gays que juram que não dão pinta. Segundo Aguinaldo, esse cliclista tinha uma voz bem fanha, se é que vocês me entendem.

Sobre Crô, o que mais impressiona é que o personagem não se intimida com os bullyings que sofre na praia nem é covarde no momento que precisa dar um soco para defender a vizinha do marido machão que adora espancá-la ou no segurança que o provoca e tenta humilhá-lo por ser gay.

E sua presença na novela faz com todos os dias os homossexuais se desafiem como pessoas realmente tolerantes com o outro, com aquele que é facilmente “condenável”. É uma forma tola de acreditarmos que se menos pintosos (muitas vezes somos tão fechativos quantos os gays que estamos condenando) sofreremos menos homofobia que uma bicha quá quá. Isso é o mesmo erro e o mesmo engano que acreditarmos que as mulheres são frágeis e covardes.

                                                                           Divulgação / TV Globo

Crô: feminino e guerreiro

Escrito por Vitor Angelo às 22h47

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Alguns erros e acertos em relação ao vírus HIV

Este dia 1º de dezembro é momento de reflexão. O Dia Mundial de Luta Contra a Aids tem muita relação com os gays, muito menos pela incidência da doença que essa orientação sexual possa ter ou tem, e muito mais pela correlação com o preconceito que as pessoas contaminadas pelo vírus do HIV sofrem ainda hoje.

Os erros:

- A imprensa, ao anunciar a doença como “peste gay” no começo dos anos 1980, foi de uma irresponsabilidade que até hoje detectamos as consequências. A Folha publicou matéria neste dia 1º informando que 20% dos paulistanos acreditam que a Aids é uma doença exclusiva dos gays e prostitutas.

- As primeiras campanhas de prevenção e conscientização contra a Aids criaram o termo grupo de risco que ainda é usado no senso comum até hoje, surgindo um pensamento errôneo que se você não pertencer a nenhum dos chamados grupos citados (homossexuais, viciados em drogas injetáveis e hemofílicos) estaria livre da doença.

- O uso do verbo imperativo nas campanhas de prevenção até pouco tempo atrás, além de apavorante, causa – no inconsciente – um misto de rejeição e desafio. “Se mandam eu usar camisinha, é aí que eu não vou usar”, agem muitos contra os imperativos.

- Com a diminuição da carga de terror em relação à doença (a Aids desdemonizou-se) e com os medicamentos prolongando a vida dos infectados, surge no meio gay – pois os héteros nunca estiveram no front do uso da camisinha – pessoas, grupos e “filosofias” que pregam que valeria o risco de transar sem preservativo. A prática “bareback” se espalha pelas comunidades gays e se mostra desastrosa.

Os acertos:

- A Aids, assim como sífilis (estigmatizada no século 16 como a Aids no século 20), é uma doença do ser humano, não importa sua orientação sexual. Em números absolutos, hoje, tem muito mais casos entre os heterossexuais, mas proporcionalmente o número dos homossexuais ainda é muito afetado no mundo. A imprensa tem ajudado – através de divulgação de pesquisas e de textos explicativos sobre a doença - a diminuir o estigma que ela própria criou de uma doença exclusiva dos gays.

- Retirou-se o nome grupo de risco das campanhas de prevenção e começou a se usar comportamento de risco. Se você transar sem camisinha seja com quem for, você tem um comportamento de risco. Claro que existem casais que fazem o teste do HIV e se der negativo, eles abolem o uso de preservativo. Mas isso depende da monogamia, na confiança do outro, o que nem sempre acontece. Pesquisas mostram o crescimento de números de mulheres casadas infectadas pelos seus maridos.

- As campanhas melhoraram, mudaram o foco imperativo, abrangem temas mais amplos, fazem uma espécie de conscientização mais subliminar como a do vídeo acima do Ministério da Saúde.

- Mesmo com uma forte condenação cheia de falso moralismo, os doentes de Aids desde os anos 1980 têm recebido solidariedade tanto de governos, ONGs e parte da população que acredita muito mais na compreensão que na intolerância. Isso torna a doença mais humana e menos estigmatizada e o comportamento que temos em relação à Aids mostra muito do quanto nos resta de humano em um mundo tão virtual.

Escrito por Vitor Angelo às 17h25

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Nan Goldin e a memória

                                                                                            Nan Goldin

Quando tinha 11 anos, a fotógrafa Nan Goldin perdeu a irmã Barbara que, aos 14 anos, se suicidou. Quando percebeu que poderiam esquecer de uma pessoa amada, a sua irmã no caso, resolveu tirar fotos dos amigos em sua volta, para que todos ficassem vivos nos registros fotográficos. Quando menos esperava, viu que muitos de seus melhores amigos eram gays e travestis. Quando, nos anos 80, a Aids contaminou muitos homossexuais, ela os fotografou para não esquecê-los jamais, em sua vida, em sua arte.

Seu trabalho fotográfico ficou marcado superficialmente por fotos de casais homo e hétero em alta voltagem sexual e com pessoas consumindo drogas e bebidas. Mas o que aparentemente tem um caráter transgressor, marginal, traz na verdade um olhar de compaixão e com paixão aos seres humanos. Seus cliques são braços estendidos de apoio, compreensão e nunca reprovação e denúncia. É o braço que estende para fixar melhor na parede da memória do mundo que aquele ser ali também é humano. Quando o olhar é com paixão...

                                                                                          Nan Goldin

Foi com enorme espanto que nesse final de semana, a curadora Lígia Canongia publicou no Facebook que sua mostra sobre Nan Goldin que iria acontecer no Oi Futuro do Flamengo, no Rio de Janeiro, foi cancelada pela instituição. “Em reunião ontem, no Oi Futuro, fui comunicada pelo curador e pela direção do instituto que a exposição de Nan Goldin estava suspensa. Em ato arbitrário, prepotente e desrespeitoso com a artista, os curadores, e sobretudo, com a obra de arte, a mostra foi CENSURADA. A artista chegaria ao Rio dentro de 20 dias, e a exposição se inauguraria em 09 de janeiro, ou seja, faltando praticamente 1 mês. A direção e a curadoria dessa casa simplesmente não sabiam quem era Nan Goldin e o conteúdo de suas imagens, tomando conhecimento delas apenas no final de outubro, embora tenham selecionado a exposição em edital de um ano atrás. Um trabalho de quase dois anos foi jogado fora, sumariamente”, postou Canongia.

“Segundo a curadora, a direção do Oi Futuro, que patrocina a mostra com R$ 300 mil, desconhecia o trabalho de Goldin e se chocou ao ver as imagens um mês antes da abertura da exposição”, escreve o jornalista Silas Martin na Folha nesta terça-feira (29).

A instituição alegou que as fotografias de crianças nuas ou seminuas feriam “os preceitos do Estatuto da Criança e do Adolescente”.  O estranho é que não é a primeira vez que a fotógrafa expõe no Brasil e, aliás, está com obras agora em São Paulo na exposição comemorativa da Bienal.

Claro que essa história ecoou bem mal no meio artístico e a exposição foi transferida para o MAM do Rio de Janeiro em fevereiro.

O que talvez seja notável dessa história é uma instituição aprovar um projeto sem ao menos conhecer o conteúdo. Isso já é superficial, mas mais superficial ainda é verem pedofilia ou desrespeito onde o que existe é memória e compaixão.

Quando Nan Goldin esteve em São Paulo, nos anos 1990, a jornalista Erika Palomino e a fotógrafa Cláudia Guimarães, por não serem superficiais e conhecerem o seu trabalho, a levaram em uma boate de travestis no centro da cidade. Era a Prohibidu’s, da famosa figura da noite Andréia de Maio, na Amaral Gurgel.

“Nan Goldin se sentiu em casa e se moveu com familiaridade no ambiente. Para falar a verdade, sequer foi notada pelas meninas. Nan Goldin fotografou Lu [Moreira, da primeira formação da banda punk Mercenárias, lésbica que namorava a travesti], Gabi [Gabriella Bionda], Andréia e os variadíssimos personagens que subiram a escadaria da boate naquela madrugada”, recorda Erika.

Quando Nan Goldin explica seu trabalho, percebemos ainda mais a superficialidade do Oi Futuro: "Não é sobre o underground nem sobre viciados e prostitutas. É sobre relacionamentos entre homens e mulheres e por que são tão difíceis. Amor vem acompanhado de violência e dor. É sempre um embate entre a autonomia e a dependência". E dá mais pistas: “É sobre a política de gênero. O que é ser mulher, o que é ser homem, quais os seus papéis sociais. As crianças são educadas para serem inseridas nesses papéis e posteriormente isso se transforma em violência”. Isso tem muita relação não só com a homofobia, mas também como encaramos o mundo a partir do binário masculino/feminino.

Mas o essencial como ela mesmo diz:  “Se eu quero tirar uma foto, eu não me importo com a luz. Não me importo com imagens perfeitas. O que me importa é a relação com as pessoas”. É apenas a paixão pelas pessoas e pela memória.

                                                                                          Nan Goldin

Escrito por Vitor Angelo às 14h26

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Paradjanov e o esquecimento

Trecho inicial de "A Cor da Romã" (1968), de Sergei Paradjanov

Existe uma beleza excessiva nos filmes de Sergei Paradjanov. Talvez esse tamanho esteticismo fosse algo insuportável para os soviéticos da época e seu realismo socialista e o acusaram de homossexual e traficante de imagens religiosas. E assim o prenderam em um gulag [uma espécie de campo de concentração], na Sibéria, no ano de 1973.

Se ele foi homossexual, bissexual (o cineasta foi casado com Nigyar Kerimova – assassinada pela intolerância religiosa – e depois com Svetlana Sherbatiuk)  ou se isso só foi uma maneira que o governo soviético encontrou para calar suas imagens, pouco importa. O que importa é que um artista do porte de Paradjanov (sobre)viveu em um clima opressivo e sem liberdades para sua criação durante anos. Aliás, importa também que, durante muitas décadas, o cineasta foi considerado gay nos anais cinematográficos, pelo menos no Ocidente. E isso nunca foi demérito – nem deveria ser – em nome de sua grandeza artística, considerado um dos maiores cineastas do século 20.

São Paulo recebeu durante os meses de outubro e novembro desse ano, a mostra “Parajanov, o Magnífico”, como parte da 35º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Era uma oportunidade de conhecer ou rever alguns de seus filmes e vivenciar suas pinturas, instalações, colagens e desenhos.

Logo nos primeiros dias, chamou atenção um texto cortado do mural explicativo da exposição. O texto primeiramente dizia: "Sua postura abertamente homossexual e sua abordagem pouco ortodoxa do cinema não são bem vistos pelos oficiais soviéticos" antes de ser apagada a palavra homossexual e o texto ficar assim:

A Folha apurou na época o caso e conversou com o curador Zaven Sargsyan que foi o responsável por “arrancar com suas próprias mãos” a palavra homossexual. O armênio achava reducionista a maneira como foi descrita a prisão de Paradjanov.

Com a pressão da imprensa, o texto logo após a reportagem se transformou em: "Acusado de homossexual e com uma abordagem pouco ortodoxa do cinema, Paradjanov não é bem visto pelos oficiais soviéticos”.

Não interessa se o diretor era ou não homossexual, mas ele foi acusado de e sofreu como, e isso não pode ser esquecido, nem pelos amantes do cinema, da cidadania, pelos os defensores dos gays e também pelos curadores de arte que investem numa expressão que a liberdade é uma de suas essências máximas.

É interessante notar que os filmes do cineasta armênio são construídos no passado, através de lendas, mitos e a partir do folclore, que nada mais é que a memória viva de um povo. Isto é, seu cinema é feito todo de memória em oposição ao esquecimento.

Ideologicamente, o esquecimento faz parte da construção da não existência, aquilo que se esquece é como se não existisse. Por isso queimar os livros, por isso apagar os tapes, por isso borrar os letreiros.

A comunidade gay conhece bem esses métodos e, em particular, as lésbicas que foram as que mais sofreram com a tática do esquecimento. Safo, uma das maiores poetas de todos os tempos, teve seus poemas quase todos queimados e muito pouco chegou até nós, assim como a aristocrata inglesa Radcliff Hall foi processada por obscenidade e o seu “O Poço da Solidão” banido por mais de 30 anos.

Por isso lembrar sempre, principalmente quando querem que voltemos para o armário, que esqueçamos quem somos. Temos que ter na memória que um grande cineasta – gay ou não – sofreu por ser acusado de sê-lo, que por sua liberdade criativa a maneira de oprimí-la foi apontando para ele “o crime” da homossexualidade. Isto o coloca no mesmo patamar de opressão que muitos gays sofreram durante o regime comunista. Isto nos irmana abertamente com Paradjanov e não há prazer maior do que ter esse grande criador de imagens como companheiro. E isso, a gente nunca pode esquecer.

Escrito por Vitor Angelo às 23h06

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Blogay Blogay é editado pelo jornalista e roteirista Vitor Angelo. Foi colunista da seção GLS da Revista da Folha.


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