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A contribuição dos gays, lésbicas e travestis para o mundo

 

O dia 08 de dezembro para o PLC122 e para os direitos gays

Sabe, a quinta-feira não foi fácil para aqueles que acreditam – de verdade – nos direitos humanos. Não foi nada tranquilo para aqueles que não querem migalhas porque não são pombos, nem porcos, e querem que os homossexuais sejam tratados apenas como seres humanos. Foi na quinta-feira, dia 08 de dezembro, que o PLC122, aquele que criminalizaria a homofobia e que ficou conhecida como lei da mordaça e no fim (por enquanto) ficou apenas um projeto decorativo, ganhando ele mesmo uma mordaça, foi à votação na CDH (Comissão dos Direitos Humanos) no Senado Federal. Foi um dia tão intenso que só consegui processá-lo em palavras nesta sexta-feira, 09.

É bom saber que as coisas não andam bem para os militantes gays. Eles foram ao plenário e, segundo relatos, eles não tiveram as mesmas facilidades que os religiosos fundamentalistas tiveram para entrar. Aliás, não só entrar como ostentar faixas de repúdio à lei. Algo de muito estranho ronda o Senado, pois a situação, vista por essa analogia, mostra sua incoerência, imaginem racistas no plenário durante a discussão sobre racismo?

                                                                        Sergio Lima  /Folhapress

Pois bem, mesmo com o artigo que proibia religiosos de pregar contra a homossexualidade retirada do projeto, eles estavam lá, para impedir uma garantia dos direitos humanos aos homossexuais que representam 10% da população deste país.

Sabe-se que a Senadora Marinor Brito(PSOL-PA), a favor da PLC abrangente e não a que Marta Suplicy (PT-SP) estava apresentando, discursava sua visão sobre o debate quando se revolta ao perceber algum religioso fundamentalista tenta ofendê—la.

É pra saber que algo estranho acontece no Senado. As imagens não mentem, aquilo que o Senador Paulo Paim (PT/RS) diz que não vê: a provocação do religioso chamando a senadora de louca e a xingando, é muito visível. A omissão de Paim, é bom saber, dá força a quem?

Talvez o mais sinistro é saber desse discurso de Magno Malta (PR-RJ) ao convocar, acuar, afirmar (você escolhe qual a palavra mais apropriada) que Dilma Rousseff assinou um documento que se comprometia não assinar nenhuma lei que desse direitos aos homossexuais. Esse acordo foi amplamente divulgado durante o segundo turno, mas o objeto dele era a expulsão da legalização do aborto do debate político. Nada foi noticiado sobre as questões dos direitos homossexuais. Basta agora saber se foi bravata ou não do senador.

Por fim, o projeto foi adiado para 2012. Enfim, foi um dia confuso. Para aqueles que queriam um projeto de lei forte e abrangente foi uma pequena vitória, mas também, se o senador Magno Malta estiver certo, de nada adiantará se Dilma Rousseff realmente assinou algo dizendo que não aprovaria nada referente aos direitos gays.

PS: À noite, desse mesmo dia 08, Dilma Rousseff apareceu na propaganda partidária do PT. Citou todas as minorias, menos os homossexuais. Será que foi esquecimento? Enfim, o dia 08 de dezembro é um dia para nenhum homossexual brasileiro se esquecer.

Escrito por Vitor Angelo às 23h46

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Contra a lei anti-homofobia que será apresentada no Senado, gays fazem twittaço e manifestação na Paulista

Os religiosos fundamentalistas satanicamente chamaram a PLC122, o projeto que criminaliza a homofobia, de "lei da mordaça". Mas quem pode acabar amordaçado são os próprios gays. Claro que não será tão fácil. Na terça-feira, 06, foi programado um twittaço a favor de uma PLC diferente da que vai para a votação no Senado. A manifestação recebeu apoio do cantor Léo Jaime, da cantora Elba Ramalho, da atriz Lucia Veríssimo, das apresentadoras Penélope Nova, Astrid Fontenelle e do jornalista Camilo Rocha, além de colocações pertinentes da relatora do antigo PLC 122/06, Fátima Cleide. E, nesta quarta-feira, 07, manifestantes se reúnem na escadaria da Gazeta, na Paulista, às 18h, em um flash mob contra o projeto considerado decorativo e ineficaz contra a homofobia.

Parece confuso? Gays contra a lei que eles tanto defendiam? Bom, a grande maioria entende que essa lei modificada pela senadora Marta Suplicy (PT-SP) não criminaliza a homofobia.

Entenda um pouco a história recente desse projeto que está perambulando como fantasma pelo Congresso Nacional faz mais de 5 anos.

Recentemente, a senadora Marta Suplicy, que tem se empenhado no projeto desde que assumiu a vice-presidência do Senado, resolveu – devido às pressões – tentar negociar com evangélicos e políticos não progressistas e chamou os senadores Demóstenes Torres (DEM-GO) e Marcelo Crivella (PRB-RJ) para formularem um substitutivo ao projeto de lei. O passo é louvável, diga-se, em política as negociações são necessárias. Mas o que surgiu desse encontro foi um substitutivo de projeto de lei com tantas modificações que sua verdadeira face foi extremamente alterada.

Alguns exemplos: O projeto não define homofobia, então como condenar algo que não sabemos legalmente o que é.

A homofobia não irá mais ser equiparada ao racismo nem ao crime de racismo ou contra as discriminações de religião, o que torna, já em sentido ético, algo absurdo, pois cria níveis diferentes de preconceito. Você é mais preconceituoso por odiar um negro do que um homossexual ou um idoso ou deficiente físico, grupos também incluídos na PLC122.

Sem falar que caíram partes importantes como a proteção das manifestações de afeto em público, a injúria coletiva . Além disso, as previsões de penas para a violência física  estão relacionadas a um Código Penal prestes a caducar. Muito pode ser entendido da modificação da lei lendo texto elaborado pelo blogueiro Marcelo Gerald e os juristas Paulo Iotti e Thiago Vianna. E mais aprofundado, lendo esses links.

Claro que os militantes homossexuais assim como a Frente Parlamentar não gostaram do que receberam desse encontro.

Foram então enviadas sugestões tanto dos militantes como de membros da Frente Parlamentar LGBT do Congresso e, qual a surpresa? Nenhuma das propostas que os militantes acreditam inegociáveis foram acatadas pela senadora. E às pressas, sem discussão com as bases, o PLC122 da Marta - como tem sido chamado - e considerado, por exemplo, pelo deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ) como “inócuo”, vai à votação nesta quinta-feira, 08.

Em seu site, o deputado escreveu: '''Esse texto do jeito que está, a Frente LGBT não concorda, não endossa', afirma Jean. 'Se os pontos importantes não voltarem ao texto, a Frente vai se posicionar radicalmente contra o texto', ameaça o deputado. Jean afirma que ficou sabendo da votação do Projeto através da imprensa na última sexta-feira. 'Ela (Marta) não nos comunicou sobre essa votação' reclama”.

Contra este estado de coisas, que os principais interessados foram preteridos e sua voz quase calada, muitos gays resolveram reagir de alguma forma. Eles utilizaram as redes sociais e promoveram um twittaço, sem falar na manifestação de indignação marcada para acontecer nesta quarta-feira, em São Paulo.

O que não se entende é essa postura às pressas e sem diálogo pois até quem é a favor do projeto da Marta já afirma que a PLC não passará. Os religiosos que negociaram com ela, além de alterar o projeto, não votarão a favor. Jean Wyllys relata em seu site: “O representante da senadora Marta explicou que o substitutivo que será apresentado para votação foi o único texto que pôde ser acordado com a bancada evangélica. Segundo ele, o recuo não é uma tentativa de conseguir o voto dos fundamentalistas, mas sim de obter o voto de setores intermediários”.

Tudo muito estranho, negocia-se e altera o projeto substancialmente com quem não apoiará e cala-se os protagonistas da história. Realmente colocaram uma mordaça , mas foi no projeto de lei que criminaliza a homofobia. Lamentável!

Escrito por Vitor Angelo às 13h03

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Sócrates e a vida dinâmica

Bicha não gosta de futebol. Essa máxima é ainda usada para separar os machos dos frangos, como se diz em Recife. Se você não gosta de futebol, tem alguma coisa errada com sua masculinidade que é sempre confundida com sua orientação sexual. O mesmo vale para as mulheres, aquelas que admiram demais o suíngue da bola, merecem desconfiança, devem não gostar tanto de homem. Mas a vida é mais complexa e dinâmica.

Eu e um amigo vendo um jogo do Corinthians, nos anos 1990

Pois bem, eu sou bicha e gosto de futebol. Garanto que não sou o único, nem o mais fanático. Mas chorei (de alegria) ao ver o Corinthians ganhar o Campeonato Paulista em 1977 depois de amargar décadas sem títulos, e chorei (de tristeza) ao ver a seleção canarinho de 1982, a mais bela, perder para a Itália na Copa da Espanha.

No domingo, 04, foi um dia que começou triste. Sócrates morreu, meu único ídolo da adolescência que resistiu ao tempo. Lembro de um dia, o jornalista Xico Sá estava com ele, na Praça Roosevelt, em São Paulo, e eu fiquei muito alterado com a presença do sempre craque, mesmo que de longe, em outra mesa de bar. O Xico ficou querendo me apresentar e eu gaguejando fugi, achei que não merecia, fui embora do bar, nem dei tchau para as pessoas que estavam na mesa comigo, tamanha a perturbação. O Sócrates depois perguntou pra ele: Quem era esse cara que ficava falando de calcanhar, calcanhar, calcanhar parecendo louco pra você?

Depois de um tempo, entrevistei o próprio Xico para este blog. E um dia, Xico me diz: “O Sócrates veio comentar comigo que ele leu a minha entrevista no seu blog e gostou muito”. Naquele momento, minha cabeça parecia que soltava fogos de artifícios, nem consegui prosseguir o assunto, fiquei meio atônito. Meu ídolo gostou de algo que fiz. É meio infantil, mas dane-se, é verdadeiro, artigo raro nos dias de hoje.

Não se espera de um jogador de futebol que ele possa se interessar por um assunto ligado aos gays, mesmo que envolva um amigo dele, no caso, o Xico Sá. Jogador de futebol só gosta de pagode e mulher. É assim que agem os que querem nos separar em caixas, padrões e formatos. Mas a vida é mais complexa e dinâmica.

Um jogador assim como um gay são seres humanos e eles podem gostar de tudo, do que bem entenderem. Essa é a jogada de calcanhar de Sócrates que devemos dar aos que querem sempre nos rotular.

"É Sócrates", gritava a torcida corintiana depois do título de domingo

Escrito por Vitor Angelo às 23h33

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Blogay Blogay é editado pelo jornalista e roteirista Vitor Angelo. Foi colunista da seção GLS da Revista da Folha.


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