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A contribuição dos gays, lésbicas e travestis para o mundo

 

Dilma Rousseff é criticada e vaiada em Conferência LGBT. Presidente precisa aprender a diferença entre opção e orientação sexual

Na quinta-feira, 15, começou em Brasília a 2ª Conferência Nacional de Políticas Públicas e Direitos Humanos LGBT. E, mesmo com uma plateia lotada de petistas, a presidente da República Dilma Rousseff foi criticada e vaiada pelas alianças com setores conservadores que lutam contra os direitos gays. Aos gritos de: "Ô Dilma, que papelão, não se governa com religião" e "a Dilma pisou na bola, homofobia continua na escola", militantes marcaram posição contra uma das linhas da política do governo atual em relação aos LGBTs.

Diferente de Lula, que esteve presente na 1ª Conferência e ainda levou oito ministros juntos, Dilma não apareceu na abertura e apenas três ministros compareceram ao evento. Isso foi muito sentido pelos presentes que gritaram o nome do ex-presidente durante a abertura. Porém, a presidente esteve 3ª Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres que tinha ocorrido alguns dias antes. É lamentável Dilma ainda não perceber que as questões da homofobia e da misoginia andam juntas, são de mesmo fundo.

A travesti Jovanna Baby foi muito clara no descontentamento do segmento LGBT com o atual governo: "Nossa presidente esteve na ONU e não teve coragem de falar de homofobia [...] Enquanto acordo com evangélicos for feito nas cortinas do palácio, o sangue das travestis vai continuar escorrendo nas ruas".

Ela se referia ao recente discurso no dia 19 de setembro, em Nova York, durante o Colóquio de Alto Nível sobre Participação Política de Mulheres, que Dilma afirmou o Brasil é país “tolerante”, “respeitoso”, mas se esqueceu de citar o recorde de assassinatos de homossexuais em terras brasilis.

Pelo menos, no discurso, ela utilizou o termo “orientação sexual” e não “opção sexual”, palavra que mencionou para explicar o veto do kit Escola sem Homofobia. Muitas das vaias e críticas à Dilma na conferência foram por ter usado o termo opção sexual.

Parece um detalhe bobo, mas não o é. A liberdade das palavras, que foram cerceadas por um discurso politicamente correto fechado é muito prejudicial para todos. As palavras devem ser livres – desenvolverei depois em outro post a minha predileção pela palavra viado a homossexual e mesmo entendendo o sentido histórico da rejeição da palavra homossexualismo por muitos militantes, acredito que uma inversão pode ocorrer em nome da liberdade e da subversão. Mas não existe mediação para quem troca opção por orientação sexual, sabe-se de que lado está quando adotamos uma ou outra palavra.

Ao utilizar a palavra opção, você acredita que sua sexualidade pode ser mudada ou corrigida, ou ainda que por perversão e safadeza você escolheu ser gay ou lésbica. O próprio senador Magno Malta (PR/ES), no famoso dia 08 de dezembro, deixou claro que não se opta por ser negro, nem deficiente, mas se opta em ser homossexual. Isso serve para legitimar as chamadas correções que tanto certas igrejas como “psicólogos” tentam impor aos gays, lésbicas, bissexuais e travestis.

Já orientação, no pai dos burros, diz respeito à: 1. Ato ou efeito de orientar(-se). 2. Tendência a seguir, uma direção, objetivo; inclinação. Isto é, o ato é íntimo, faz parte de sua individualidade, você se orienta. É uma conquista, não uma escolha como querem os que falam opção sexual.

Para terminar, um exemplo bem claro presidente Dilma, a diferença entre opção e orientação sexual é a mesma das pessoas que dizem que a senhora foi uma terrorista e outras que acreditam que foi guerrilheira. Esteja ciente disso!

Escrito por Vitor Angelo às 18h08

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Homofobia é crime sim, senhor João Pereira Coutinho

Em artigo para a Folha, o colunista João Pereira Coutinho alega que homofobia não é crime. Em sua argumentação, além de uma escabrosa visão do julgamento de Oscar Wilde sem a devida apreciação histórica, ele afirma que “é perfeitamente legítimo que um heterossexual não goste de homossexuais. Como é perfeitamente legítimo o seu inverso. Vou mais longe: no vasto mundo da estupidez humana, é perfeitamente legítimo não gostar de brancos; de negros; de asiáticos; de portugueses; de brasileiros; de judeus; de cristãos; de muçulmanos; de ateus; de gordos ou de magros. A diferença entre um adulto e uma criança é que o adulto entende que o mundo não tem necessariamente de gostar dele”.

Confusa também é sua argumentação entre gosto e civilização. Ou como os reacionários agora proclamam: liberdade de expressão e direitos humanos (esse chatos!, adoram sublinhar). Ora, é quase consenso que no capitalismo tardio – em um processo que podemos identificar já no cristianismo - rumamos para uma espécie de individualização, as tendências de mercado cada vez mais dialogam com uma possível individualidade do que com o chamado coletivo, por mais que isso faça surgir novas problematizações. Mas, no campo do indivíduo, eu gosto ou não de pessoas  - claro que questões estéticas, étnicas e religiosas podem interferir. Mas a vida é muito dinâmica e é possível um gay ser amigo de um evangélico (grupos que hoje parecem antagônicos). Eu, aliás, (já no campo das individualidades) tenho vários excelentes amigos evangélicos que sabem da minha orientação sexual e não desgostam nem me condenam por isso. Caminhamos em campos distindo, sr. João Pereira Coutinho, um mundo que os indíviduos estão acima da coletividade ou de grupos seja étnicos, sexuais ou de qualquer natureza.

Aliás, gosto se refina, se civiliza. Qualquer um que vive sabe disso, que com informação e educação, certas coisas aprendemos a gostar.

Outra ideia que me parece equivocada é o fato de a homofobia pertencer aos heterossexuais. “É perfeitamente legítimo que um heterossexual não goste de homossexuais”. A resposta que destrói essa argumentação vem de seu próprio texto de Coutinho: “De igual forma, ninguém de bom senso negará que persistem crimes medonhos contra homossexuais, seja no Brasil ou na Europa, porque os agressores, normalmente homossexuais reprimidos, não gostam de se ver no espelho”.

Muito já se debateu sobre a homofobia introjetada de grande parte dos homossexuais, assim como o fato da maioria dos homofóbicos serem homossexuais mal resolvidos, o que é uma cruel verdade. Como já citei La Boétie algumas vezes, as minorias são vítimas de sua própria escravidão, a voluntária. Então, não é uma questão de uma disputa entre homossexuais e heterossexuais, ou o fato de um não gostar do outro e sim entre intolerantes e civilizados. A homofobia pertence a todos (gays ou não). E se o mundo civilizado pretende-se cordial, não pode ter espaço para intolerância.

Além disso, a homofobia não é um crime apenas físico, muitos adolescentes gays se suicidam pelas pressões psicológicas nas escolas. A violência, na homofobia, está além da brutalidade física assim como o alvo está além dos homossexuais. A homofobia pertence a todos (gays ou não).

Heterossexuais são vítimas de atos homofóbicos e a cada dia mais no Brasil temos registros de casos desse gênero. O pai que teve a orelha decepada por estar abraçado ao seu filho e ser confundido com um gay não é um fato isolado, infelizmente.

Negar a homofobia como crime, é negar o crime de racismo ou o antissemitismo e acreditar que Hitler apenas não gostava dos judeus. Até porque quando não gostamos de alguma coisa, simplesmente nos afastamos e não tentamos exterminá-la numa espécie de guerra santa. Explico: se eu não gosto de quiabo, eu simplesmente não como, agora eu não vou nas feiras tentar proibir que se venda quiabos pros outros. Mas quem sabe, um dia, fazem um quiabo da forma eu comece a gostar? Isto é civilização. Nesse exemplo banal está toda a resposta para entendermos também a perversão da proclamada liberdade de expressão defendida pelos reacionários contra os homossexuais.

No mundo civilizado, senhor João Pereira Coutinho, homofobia é crime sim.

 

PS: A pesquisadora de cinema Luciana Côrrea de Araújo me enviou essa tira de Laerte que, acredito, compõe e complementa o texto acima de forma bem sintética, mas não menos profunda:

Escrito por Vitor Angelo às 22h09

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Herbert Daniel, coragem e exemplo

Herbert Daniel faria 65 anos nesta quarta-feira, 14. Muita gente desconhece, mas ele foi um grande ativista dos direitos homossexuais no Brasil e não só deles, mas de toda a construção de uma cidadania que ainda engatinhamos no país.

A lembrança que tenho dele é de uma entrevista na extinta TV Manchete, nos anos 1980, que, já doente, vítima da Aids, ele falava que ao pensar na morte, acreditava que sentiria muita falta de tomar café com leite.

Dessas singelezas que nascem grandes homens. Ele não sentiria falta da adrenalina da época da guerrilha, dos sequestros de embaixadores, nem do exílio, nem dos grandes encontros com brasileiros importantes da nossa história. Não, o que sentiria falta era da mistura genial do café e do leite.

Herbert, o guerrilheiro da época da ditadura militar, que na clandestinidade era chamado de Daniel, resolveu assumir esses dois lados, o conhecido e o desconhecido, Herbert e Daniel. Aliás, ao assumir seu nome de guerrilha, ele traz à luz o que poderia ser obscuro. E foi sempre assim com ele. Ao contrair o vírus HIV, não teve temor de, em uma época que a doença era chamada de peste gay, dizer com todas as letras que estava doente.

Não foi preso, isto é, a polícia não conseguiu nem matá-lo nem prendê-lo. O que apenas o prendeu foi a literatura e seu amor à liberdade. Escritor, ele é autor de “Jacarés e Lobisomens, Dois Ensaios sobre a Homossexualidade", "Passagem para o Próximo Sonho", "Meu Corpo Daria um Romance", "Vida antes da Morte" e do texto dramatúrgico "As Três Moças do Sabonete”.

Companheiro de Carlos Lamarca nos ideiais de mudanças e de Claudio Mesquita nas questões do coração, ele soube fazer a autocrítica e lembro de falar algo como: será possível uma revolução que a questão homossexual era trancada no armário, que era um assunto que não entrava na pauta?

“Quis estipar o sexo antigo. Aos poucos, naquele ano, adotei um sexo futuro, novo, que naquele instante se tornava pura abstinência. A última vez que trepei com alguém deve ter sido em meados de 67. Abstinente, passei toda a clandestinidade. Sete anos. (Não posso deixar de escrever o prometido elogio à punheta, senão dificilmente poderei fazer alguém compreender a minha clandestinidade. Porque creio que se tivesse apagado meu sexo nunca teria acreditado na militância. Um militante sem sexo é um totalitário perigoso. Um punheteiro é apenas um confuso ingênuo e esperançoso.)”, escreveu.

Salve Herbert Daniel!

Escrito por Vitor Angelo às 20h52

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Beijo gay provoca tumulto em show da funkeira Valesca Popozuda

                    Diego Padgurschi / Folhapress

No show de Valesca com a Gaiola das Popozudas, na boate Pier 27, em Vila Velha, Espírito Santo, na madrugada de sábado para domingo, 11, um beijo gay foi a faísca para uma briga que deixou a funkeira acuada em seu camarim até às 5 horas da manhã.

Segundo o Portal PS, nesta segunda-feira, 12, "um grupo de rapazes não teria gostado de um casal gay que teria se beijado na área Vip, próximo à escada de acesso ao local, no segundo andar da Pier 27. O produtor cultural Rubinho Neto contou o que viu: 'Eu estava lá e a briga foi no final. Por conta de um rapaz que beijou o outro lá em cima. Tiro não teve, isso já é mentir demais. Eu estava do lado dos dois. Os funkeiros não gostaram do que viram e um deles apertou o extintor de incêndio com pó quimico sobre os dois –'pra apagar o fogo deles'. Um amigo das bichas tacou um garrafa nos caras e aí começou tudo'".

Testemunhas contam que teve gente ensanguentada que acabou sendo atendida pelo Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência).

O que é de se estranhar é que o funk, com sua alta voltagem sexual, com letras com sexo explícito, tendo figuras como Lacraia, tenha admiradores que ainda estranhem dois homens se beijando.

O mais triste ainda é um beijo causar tanta violência. Vem Lacraia, ensinar pra esses agressores ofendidos qual a real natureza sexy do funk carioca.

Atualizado no dia 13/12/2011:

A assessoria da MassaCult, que organizou o show de Valesca e a Gaiola das Popozudas no Píer 27, em Vila Velha, enviou um comunicado para o Blogay:

"A Píer 27 e MassaCult informam que em nenhum momento pessoas, equipe ou clientes, entraram com qualquer tipo de arma na boate. Não houveram tiros no interior da casa. Os barulhos escutados foram de vidro quebrando e mesas caindo. Gostaríamos de ressaltar que em nenhum momento, desde às 23h (quando a casa abriu) houve qualquer tipo de manifestação preconceituosa entre heterossexuais e homossexuais, ou vice-versa. Assim como não houve uma "invasão heterossexual" à casa. A presença de público era mista e não destinada, tão e somente, ao público LGBT.

Houve uma confusão que foi separada pela equipe de segurança da casa. Com isso, o empurra-empurra, alguns clientes ficaram nervosos e assustados. Todos foram prontamente orientados a se dirigirem às áreas externas da boate (varanda), que foram imediatamente abertas para que as pessoas pudessem circular. Em nenhum momento as saídas de emergência estavam trancadas. A artista, assim como equipe e alguns clientes foram encaminhados para o backstage, buscando a segurança de todos".

Escrito por Vitor Angelo às 22h24

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Justiça avança onde Legislativo se apequena: Vítima de homofobia na Paulista terá tratamento médico pago pela família do agressor

No dia 08 de dezembro, o senador Cristovam Buarque (PDT-DF) disse a seguinte frase, durante a votação do PLC122 que criminaliza a homofobia: "Estado não se mete no que é pecado e Igreja não se mete no que é crime". Essa afirmação positiva do Estado Laico é o que tem gerenciado muitas das ações da Justiça, muito diferente das ações do Legislativo brasileiro que se apequena em confundir questões de espiritualidade com estado de direito.

Mais uma vez, a Justiça faz demonstração que sai à frente, nesta sexta-feira, 09, um dia depois da PLC122 ser retirada de votação para reexame. No famoso caso da agressão feita por quatro jovens com lâmpada fluorescente em homossexuais, na avenida Paulista, o desembargador Alvaro Passos, da 2ª Câmara de Direito Privado do Tribunal do Estado de São Paulo, determinou que a vítima L.A.B. tenha o pagamento do tratamento médico e psicológico pago pelo agressores.

O caso não está encerrado, isto é, ele está em andamento - foi uma pena que foi imposta antes do fim do processo - e parece que alguma justiça já começa a vingar em um país que a impunidade, ainda mais para jovens de classe média alta, sempre super protegidos, é quase lei.

Em reportagem da revista Isto É, mostra-se que adolescentes tinham total aval de seus pais: "’Tudo não passou de uma briga boba’. Foi assim que a publicitária Soraia Costa, 37 anos, classificou a série de espancamentos protagonizada pelo seu filho – de 16 anos – e mais quatro amigos. Todos estudantes de classe média, baladeiros e com histórico de rebeldia. Uma das vítimas foi L.A.B. Ele saía de uma delegacia na região central de São Paulo – com o rosto todo inchado, cheio de curativos e uma porção de hematomas pelo corpo – quando foi abordado por Soraia. Era domingo 14. De maneira autoritária, a publicitária reprimiu a atitude do rapaz. ‘Você não precisava ter feito um boletim de ocorrência'".

É exatamente por não ser conivente com esse pensamento reinante em uma classe média mimada, que a Justiça avança. É exatamente por não se apequenar como o Legislativo, fazer boletim de ocorrência, denunciar, pressionar na mídia que muitas vítimas da homofobia (homossexuais ou não) fazem mudanças, junto à Justiça, às penas que esses agressores covardes até então se orgulhavam de serem imunes.

Escrito por Vitor Angelo às 19h41

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Blogay Blogay é editado pelo jornalista e roteirista Vitor Angelo. Foi colunista da seção GLS da Revista da Folha.


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