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Entrevista com Augusto Treppi: “o submisso se realiza em sua submissão”

Só se conhece Augusto Treppi virtualmente, apesar da materialidade de seus livros.  Em seu terceiro romance, ele tem conquistado leitores muito mais pela forma que entrelaça sexo e poder do que as pitadas pornográficas de seus livros.

Muitas vezes, a sua leitura pode ser excitante no sentido sexual da palavra, mas muitas vezes pode ser perturbadora como em alguns trechos de “Dominação”. Ele acaba de lançar seu terceiro livro, um e-book chamado Obsessão, e Blogay o entevistou.

 

Blogay - Sobre o que se trata o livro “Obsessão”, seu terceiro livro?

Augusto Treppi - "Obsessão" é meu primeiro livro narrado em primeira pessoa. Nele, o personagem Ramon conta a surpreendente história do seu relacionamento com Denilson, iniciado depois de ter passado um bom período de molho, se recuperando do primeiro casamento (gay) desfeito. Essa nova relação apresenta ao personagem, um cirurgião bem sucedido, um mundo totalmente diferente, pois o novo parceiro é de outra classe social e econômica, além de mais jovem. Os dois ainda são jovens, porém há uma boa margem de diferença, pois, quando o livro começa, Ramon tem 35 anos e Denilson apenas 20. As personalidades também são diversas. Enquanto Ramon é um homem doce, mais frágil, bastante ingênuo e conciliador, Denilson tem autoestima muito elevada, é bem seguro, determinado e até mesmo truculento. Para enfrentar o dia a dia, ambos terão que avaliar seus conceitos, preconceitos e superar muitas barreiras. O desenvolvimento dessa trama traz elementos de suspense, ação, pitadas de romance policial e momentos de humor, devido às atitudes de alguns personagens coadjuvantes. Claro, também não falta o sexo explícito, narrado cinematograficamente, característica do que escrevo. Com Denilson, o cirurgião comportado e convencional conhece possibilidades sexuais que elevam o seu desejo e sensualidade a patamares nunca imaginados.

Quais são suas influências (literárias ou não)?

Acho que sou muito influenciado pelo cinema, de maneira geral. Sempre assisti muitos filmes e tenho gosto bastante eclético. Da mesma forma, sempre li demais, desde criança. Creio que uma influência de família, por ter pais muito ligados à cinema e literatura, embora com pouca escolaridade formal. Atualmente, sinto também que os seriados de TV interferem no meu estilo. Gosto muito, tanto das comédias quanto dos dramas e policiais investigativos. Em alguns momentos, percebo claramente esta influência na minha narrativa. Já na parte erótica, ou pornô, dos meus livros, a maior influência vem da Internet. Sou um ávido consumidor de relatos e vídeos pornôs. Muitas vezes, antes de escrever, passo horas assistindo videozinhos, vendo performances, relatando mentalmente aquilo que estou vendo. Tento, e acho até que consigo, passar para os leitores a visualização total das cenas, usando palavras. Acho que, talvez por isso, este aspecto do meu trabalho seja tão marcante. Além, é claro, por ser algo não muito usual em literatura. Acho que, pelo menos no Brasil, sou precursor no gênero.

Quando resolveu escrever? Porque a temática gay é importante em seus livros para você?

Eu sempre escrevi, desde a infância tenho facilidade e afinidade com a escrita. De certa forma, toda minha vida profissional esteve vinculada à esta atividade. Como Augusto Treppi, a história começou há uns 4 anos, por causa da Internet. Costumo dizer que se a Internet existisse antes, minha vida teria tomado outro rumo e talvez eu tivesse realizado a mais tempo o ideal de ser escritor. Tudo começou como uma brincadeira, em um grupo de contos eróticos que eu participava. Sugeri que alguém escrevesse um conto onde um office boy dominasse o patrão. Como ninguém fez, resolvi eu mesmo levar adiante, e nasceu o “Comido Pelo Office Boy”. Fez bastante sucesso e vi que no final havia deixado um gancho para continuidade. Assim surgiram as sequências, como se fossem episódios. Do grupo, migrei com a história para o Orkut, onde surgiu Augusto Treppi, um perfil fake que passou a assinar este e outros textos. Com o sucesso, os episódios passaram a ser publicados por sites, alguns eu mesmo mandando, outros no esquema “criativo” CtrlC+CtrlV, esquecendo dos créditos ao autor. O número de leitores foi só aumentando e começou a haver uma confusão, porque os episódios seguiam uma ordem lógica (olha aí a influência dos seriados...) e quem estava iniciando ficava meio perdido. Criei então um blog para poder publicar tudo certinho atendendo a dois objetivos: facilitar para os leitores e garantir a autoria. O acesso foi enorme, e esta foi a razão dele virar um livro. Depois dessa decisão, ele foi interrompido na Internet e o blog posteriormente extinto. Por razões editoriais e mercadológicas, o título foi mudado para “Dominação – Sexo e Violência Transformando Uma Vida”. “Virei” então o escritor profissional que hoje sou.
Já a temática gay é importante por dois motivos principais. Um é porque sou gay. Claro que, como escritor, posso escrever sobre qualquer universo, mas essa realidade me atrai mais, além de considerar que contribuo mais falando de um tema que conheço pessoalmente. Outro fator, que considero até mais importante, é que o artista tem voz, e é legal usá-la em prol de causas em que acredita. Meus livros têm muito sexo sim, mas não são somente sexo. Nas entrelinhas, e algumas vezes de forma bem direta mesmo, trato de temas relevantes de combate ao preconceito, à homofobia, abordo questões sociais e exerço minha militância. Através da literatura é possível conscientizar sem ser didático, o que acaba sendo bem eficaz.

A temática gay é presente nos seus três livros, mas a pornografia é o que os une. Qual o limite entre literatura e pornografia? Quando a pornografia pode ser literária e quando não?

Acho que a pornografia é literária quando ela é bem escrita. Este é um ponto positivo. O outro, contrário, é que creio ser bem difícil fazer literatura somente com pornografia. No meu caso, os meus três livros têm cenas de sexo explícito, e essa é a parte pornô. Mas a coisa não se encerra aí. Existe um roteiro, um desenvolvimento psicológico de personagens, a construção da trama, o conflito, os entraves da escrita e suas soluções. Então, pelos dois motivos, hoje tenho segurança de que o que faço é literatura. Escrevo bem a parte pornográfica e a insiro, com coerência, dentro de todo o resto. Há uns meses atrás, o Jô Soares, entrevistando um escritor em seu programa, disse que excluir a pornografia da literatura é mero preconceito. Concordo plenamente. Se o escritor pode descrever, com todos os detalhes, um encontro dos personagens para um lanche, porque na hora da transa tem que ir só até a parte em que a porta do quarto se fecha? Ali dentro não vai acontecer alguma coisa, que pode também ser descrita em detalhes? O sexo faz parte da vida. Assim como todo mundo lancha, todo mundo também transa.



Você acredita que seus livros não foram ainda bem examinados pela crítica literária porque são pornográficos? Você sente algum tipo de preconceito do leitor, digamos, mais “culto” em relação à pornografia muito direta e crua em seus livros?

Este preconceito é visível a olho nu e entendo, porque eu mesmo tinha muito preconceito. Lembro de um leitor, que se tornou bem próximo, insistindo comigo sobre a qualidade, ainda no primeiro livro. Eu reagia, falando que não tinha a intenção de ficar conhecido como “escritor pornô”. Hoje consigo compreender muito bem o que ele queria dizer. Fico até admirado como ele conseguia enxergar tão mais na frente, e tão mais claramente, que eu mesmo. Agora, não associo este preconceito ao leitor mais “culto”, até porque tenho leitores bastante cultos e nem por isso deixam de ler e gostar dos meus livros. Acho que é mais o medo da exposição. A pornografia é uma das coisas mais consumidas no mundo, mas se você for olhar, parece que é uma das menos, porque raras são as pessoas que assumem consumir. Gay então, piorou. O armário continua sendo uma realidade muito presente. Pelo lado da crítica especializada, pode ser também que eu ainda não tenha sido “descoberto” por ela, pode ser que ainda não tenha sido provocada o suficiente para “me ler”. Tenho alguns casos isolados. Afonso Borges, que é o idealizador e realizador do maior projeto literário do país, o Sempre Um Papo, leu dois dos meus livros. Na época, ele tinha um “blog de rádio”, Mondo Livro, um programa curto onde falava de literatura. Uma das edições foi dedicada ao meu trabalho, onde ele falou textualmente: “Augusto Treppi ou Igor Capezzi? Não importa. Este autor, que se oculta em heterônimos, é um interessante escritor. A sua temática, homossexual mostra um mundo carregado de preconceito, mas cada vez menos oculto. E, para falar a verdade, tanto faz. O importante é que este é um bom escritor. E que faz literatura erótica de qualidade. Em tempo – não recomendado para menores de dezoito anos.” Veja bem, um homem, hétero, pai de crianças, que vive literatura 24 horas por dia há 25 anos. Uma pessoa de respeito no meio, mas, sobretudo, uma mente aberta. Além dele, que o fez publicamente, já recebi outras opiniões favoráveis, em conversas privadas. A questão pra mim é essa, alcançar as pessoas dispostas a ler, para então depois dizerem se gostaram ou não. Com toda sinceridade, não sou alguém em busca de elogios, mas de análises sinceras que me façam crescer.

Outro ponto importante em seus dois livros é a questão do sexo como forma de poder. Como você enxerga a relação sexo e poder?

Sexo é poder. Para confirmar esta afirmação basta ver quantas pessoas deixaram suas fortunas serem dilapidadas por alguém com quem tinham relações sexuais. Quantos homens influentes tiveram suas vidas desestruturadas, perdendo cargos, posições e poder em função de outras que tinham como instrumento somente o sexo? Riqueza, inteligência, cultura, formação acadêmica e um vasto etc são instrumentos de poder mas, a maior parte dos que os detêm, sucumbem àqueles que têm o poder do sexo.

Ainda na chave sexo e poder, existe algo de subversivo em seus dois primeiros romances. O dominador, por exemplo em “Dominação”, é um negro pobre que tiraniza um branco rico e no “Cama King Size”, temos um nerd dominando dois garotões populares. Como você fez essas construções de personagens historicamente reprimidos socialmente serem os algozes de seus repressores? No sexo é possível essa inversão? Estaria ai uma das bases do sadomasoquismo?

Eu gosto sempre de surpreender o leitor. Isso ocorre também no “Obsessão”. Gosto mesmo de subverter os clichês. Não necessariamente o rico terá poder sobre o pobre, o grande sobre o pequeno, o mais velho sobre o mais novo. Na vida, sabemos que isso acontece sim, mas não é uma generalização de 100%. Mostro pessoas de atitude que, ao contrário de se sentirem limitadas pelos poucos recursos, sejam físicos ou financeiros, potencializam seus atributos, acreditando em si mesmas. Através do sexo então, é totalmente possível essa inversão. A chamada “pegada” é poderosa e determinante. O “ser desejado” geralmente tem total ascensão sobre o “ser desejante”, ainda que os dois desejem, porém de formas diferentes. Todas as relações presentes nos meus livros são consensuais, no final das contas ninguém é forçado a nada. Mesmo no “Dominação”, com toda violência explícita, percebemos que o submisso se realiza em sua submissão. Neste consenso, é a atitude que conta e a natureza humana é diversa. Normalmente aquele que domina acaba por encontrar outro que, no íntimo, deseja ser dominado. Por trás de toda essa subversão dos clichês, é importante que tudo seja o mais próximo da verdade, mesmo numa literatura de ficção. Assim, procuro dar aos personagens as características que façam o leitor acreditar na possibilidade daquela relação ter se estabelecido. Quanto ao sadomasoquismo, eu vejo como um jogo sexual. Ele não se aproxima da verdade, é apenas lazer. Sempre digo que sadomasoquismo é brincar de casinha. Nos meus livros não trato de relacionamentos SM, pois o jogo que se estabelece é sempre cotidiano e constante, e não feito com hora marcada.

As cenas de sexo de seus livros são sempre muito ágeis, bem escritas, mas enfadonhas pois muito parecidas e repetitivas, com leves mudanças, como nos filmes pornográficos. Existe aí uma crítica a como sexo e monotonia se alimentam?

Não, na verdade nunca tinha pensado sob este aspecto, mas é bem interessante a ideia desta crítica. O que ocorre é que o ato sexual não tem mesmo muitas variações, o que também é claro nos filmes, como você mesmo citou. O que variam são as situações que levam a ele e o contexto. Neste ponto acho que a variação acontece bastante nos meus livros. No ato em si, por mais que eu procure criar e alguns leitores até chamem atenção para estas criações, em alguns aspectos acaba ficando repetitivo mesmo. Aí, quanto mais cena de sexo tem o livro, mais risco de se encontrar partes repetitivas. Não sei se fruto de aprendizado, mas percebo que a cada livro isso muda um pouco. Não que tenham menos sexo, mas ele vem mais dosado. No “Cama King Size” isso já é perceptível em relação ao “Dominação”. No “Obsessão”, essa característica se acentua, e creio que ele traz um “volume” mais apropriado de transas. Considero isso positivo, porque na medida em que o tempo foi passando, fui percebendo uma alteração no perfil do meu leitor, provavelmente pelo fato da plataforma ir crescendo. Antes, eu pensava que seria um escritor de nicho, um nicho que não se preocupa com a repetição e nem a considera enfadonha, pelo contrário, procura sexo a cada virada de página. Hoje, me surpreendo de ver quantos leitores héteros, mulheres inclusive, me leem, sem contar gays interessados nas questões que extrapolam o pornô nos meus livros. Sei que vários deles se excitam com as cenas, mesmo os que não são gays. Mas muitos também estão mais envolvidos pela trama. Nesse aspecto, acho positivo que o sexo explícito, cinematográfico, permaneça como uma das minhas marcas. Mas, como dito, “uma das” e não “a”.

Quem é Augusto Treppi? Como ele surgiu, tem uma história, idade...? E quem é Igor Capezzi?

A história de Augusto Treppi acabei mais ou menos contando quando falei sobre a decisão de escrever. Ele surgiu no momento em que o meu primeiro livro, ainda sem pretensão de ser livro, começou a ser escrito na Internet, mas, pessoalmente, ninguém de fato me conhece. Já Igor Cappezi foi um heterônimo criado para o segundo livro, “Cama King Size”. Como o “Dominação” veio com muita força, e é uma história bem fetichista, inclusive com muita violência, na época achei que seria bom diferenciar, pelas características mais “amenas” e românticas do novo livro. Hoje, penso que não havia essa necessidade, e nem foi lá uma grande ideia. Tanto que voltei a ser Augusto Treppi no “Obsessão”, que assim como o “Cama King Size”, também não é fetichista como o “Dominação”.

Dê informações de como adquirir seu livro.

A primeira loja que sempre recomendo é a www.comprelivrosgls.com.br, porque ela tem todos os livros em todos os formatos, tanto impressos quanto e-book. Além disso não cobram frete dos impressos e fazem muitas promoções. Agora, eles podem também ser encontrados em outras livrarias, como a www.livrariacultura.com.br, www.ciadoslivros.com.br, www.martinsfontespaulista.com.br, www.gugah.com.br e www.allprinteditora.com.br. Breve vão estar no site da Simplissimo, que passa por reformulação, e também na Livraria Saraiva e Amazon. Nem todas têm todos os livros, mas através dos mecanismos de busca é fácil verificar pelos títulos. As versões impressas do Dominação e do Cama King Size são vendidos também em alguns Sex Shoppings, já o Obsessão só saiu em e-book.

Escrito por Vitor Angelo às 01h24

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Blogay Blogay é editado pelo jornalista e roteirista Vitor Angelo. Foi colunista da seção GLS da Revista da Folha.


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