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A contribuição dos gays, lésbicas e travestis para o mundo

 

Realidade x reality

Muito já se condenou a Globo por manipulação, principalmente na época da ditadura militar. Durante as Diretas Já, no começo dos anos 1980, a emissora mostrou as manifestações na Praça da Sé como parte dos festejos dos 430 anos de São Paulo.

Claro que a resposta veio das ruas. Ao finalmente deixar de ignorar as manifestações populares, a emissora resolveu passar ao vivo uma das mobilizações pela democratização do país no Anhangabau e ganhou um uníssono: “O povo não é bobo, fora a Rede Globo”.

Anos depois, muitos condenaram a manipulação da edição do debate dos então candidatos à Presidência Fernando Collor e Luiz Inácio Lula da Silva transmitido pela Rede Globo. O próprio Boni, na época o todo-poderoso da emissora, admitiu que deu uma ajuda na montagem da imagem de um Collor mais popular para esse momento histórico.

A esquerda costuma muito condenar esses atos que chama de manipulação, mas esquerdistas como o documentarista Michael Moore fazem exatamente o mesmo em seus filmes. A questão, na verdade, passa muito menos pela objetividade e sim pela ética.

Explicitar o seu recorte, mostrar como se pensa e qual o ponto de vista sobre tal assunto é muito mais objetivo criticamente do que uma suposta imparcialidade, muitas vezes mais montada e forjada do que uma ficção científica.

Para todos que olhassem com mais atenção os episódios acima, podemos perceber que sim, existe a tal manipulação e/ou recorte, mas também essa vontade de imparcialidade herdada do jornalismo clássico.

Mas isso foi na época que filosofia e técnicas de jornalismo davam suporte para criar imagens da realidade. Agora estamos no tempo do reality, do Big Brother Brasil e, de forma presunçosa, os detentores desse meio parecem ignorar tanto o jornalismo como a filosofia. E de forma autoritária, montam uma realidade muito mais manipuladora que a que tentou esconder as Diretas Já.

Para eles, “Aids é doença de homossexuais”. A fala feita pelo campeão do BBB 10, Marcelo Dourado, não foi questionada em nenhum momento pela equipe, pois o reality também pode ser ficção e, eles, os que editam, simulam, criam provas, sabem muito bem disso. Mas esquecem que assim como a novela, aliás, em um grau acima da novela, o reality é visto pelos telespectadores médios como a mais pura realidade. E nessa realidade criada pelo senhor Boninho, Bial e cia, a Aids realmente é uma praga gay. Poderia até ser, se não matasse milhares de heterossexuais por ano no mundo.

Então, a realidade se coloca e através do Ministério Público, quase no fim daquele programa, passado quase dois meses, Pedro Bial, o porta-voz, teve que se retratar de uma fala tão obscura e irresponsável, porque se entendia - já que estamos no campo misto entre ficção e realidade - que o responsável pela fala não era Dourado e sim o programa.

As redes sociais que, entre outras coisas ruins e boas, têm se mostrado como um dos instrumentos da cidadania não estava tão aparelhada naquela época como está agora. E dessa vez, o resultado foi imediato. Um vídeo que mostrava um dos participantes, Daniel, bolinando uma das mulheres da casa, Monique, que parecia supostamente desmaiada gerou controvérsias. Seria estupro? Foi consentido? Ele passou dos limites? Opiniões divididas e questões levantadas que só o programa poderia responder.

Mas a Globo novamente preferiu o obscurantismo e retirou os vídeos da internet. Esquecendo a ética, declarou que aquilo foi um caso de amor e que as acusações ao participante eram racistas porque ele é negro para depois voltar atrás e o próprio diretor admitir que o brother “passou dos limites”. A emissora tentou ignorar, mas novamente a realidade se impôs e até apareceu a polícia (essa mesmo, que eu já considero a musa do verão 2012 só que ao contrário porque ela está em todas: Usp, Cracolândia e até BBB).

Além da ética, a emissora parece ter esquecido também regras claras de jornalismo. Por que – antes de expulsar Daniel - não ouviu as duas partes envolvidas, apenas uma foi questionada? Por que não fez uma espécie de acareação, já que o possível crime é muito grave, caso tenha ocorrido? Por que por panos quentes e fingir que nada está acontecendo? Por que o medo de encarar a realidade de frente?

Novamente, apesar das polarizações, o grande culpado não é nem Daniel, nem os discursos misóginos contra Monique e sim um programa que, em nome da audiência, prefere construir bodes expiatórios, do que encarar nem que de leve a realidade e a ética.

Se por um lado o Brasil hoje e a realidade do país é mais democrática e fluida, na Globo parece que realmente o reality transformou alguns em verdadeiros "Grande Irmão".

Escrito por Vitor Angelo às 17h22

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Blogay Blogay é editado pelo jornalista e roteirista Vitor Angelo. Foi colunista da seção GLS da Revista da Folha.


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