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A contribuição dos gays, lésbicas e travestis para o mundo

 

As Canções

“I Will Survive” assim como “It’s Raining Men” são canções consideradas gays, assim como muitas de Madonna, Britney Spears e Lady Gaga. É interessante olhar para o que tal música traz para ser identificada por certo grupo e em certo tempo como algo que diz respeito a uma época, um ideário.  Mas, o quanto isso diz respeito a todos os gays?

Apesar do sentido ideológico que podem trazer as músicas que são consideradas gays e devem ser no mínimo pensadas como símbolos de orgulho, respeito e principalmente existência de um grupo,  elas trazem também um componente estranho. Para muitos homossexuais, essas canções acima não dizem nada a seu respeito nem os representam. Sentem que existe uma espécie de forçação de barra para que se padronize um gosto, um pensar, um grupo.

Existe um traço poderoso na canção que, no fundo, luta contra esse processo de coletivização. É quando a canção mais do que memória de um grupo, é uma madeleine pessoal, é aquela que traz a lembrança que só pertence ao indivíduo. Ou quando o indivíduo se une a outro (o amigo, o amante) fazendo que a canção seja a ponte de um novo um que surge da fusão temporária dos dois.

Quando escuto “There Is a Light That Never Goes Out”, dos Smiths, o que sinto não tem muito a ver com homossexualidade e sim de forma intensa vem à mente minha amiga Geórgia, recém chegada a São Paulo, com 18 anos, comendo salada russa em um restaurante perto da Paulista, esperando seu pensionato abrir e a gente matando o tempo nas ruas, conversando ou cantando essa música. É tudo tão prosaico, tão pessoal, mas não menos poderoso e importante para minha vida, para minha formação de indivíduo.

É nessa chave que “As Canções”, de Eduardo Coutinho trabalha. Ao entrevistar pessoas e pedir para que cantem músicas que marcaram a vida dos entrevistados de alguma forma, o documentarista não está preocupado com as grandes mudanças históricas de um país ou do mundo e sim com as pequenas transformações sofridas pelos indivíduos e que as canções ajudam a recordar.

Por isso quando me falam que tal música é gay, eu nunca nego, mas ela quase nunca me pertence como indivíduo. No fundo, o que as canções cantam aos nossos ouvidos é que, além de gay ou acima desse detalhe, existe o indivíduo e ele é muito mais difícil de afinar ou desafinar.

Escrito por Vitor Angelo às 19h30

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Blogay Blogay é editado pelo jornalista e roteirista Vitor Angelo. Foi colunista da seção GLS da Revista da Folha.


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